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A era depois da era: Madonna abre as portas de Confessions II

há 3 dias
13 min de leitura
A era depois da era: Madonna abre as portas de Confessions II

Entre os bastidores de estúdio e a intimidade das novas plataformas, Madonna prolonga a experiência de seu álbum e nos convida a pensar sobre o que significa acompanhar uma era pop na cultura digital.


Madonna abre as portas do estúdio de Confessions II em nova série de vídeos


Os bastidores da criação ganham espaço no YouTube, com registros de Madonna ao lado de Stuart Price, Andrew Watt, Cirkut e Stromae durante a produção do álbum.



Uma playlist especial no canal oficial de Madonna no YouTube convida o público a acompanhar de perto o processo criativo do álbum, revelando momentos de trabalho em estúdio e encontros entre os artistas envolvidos na produção.


A novidade chega acompanhada de entrevistas concedidas por Stuart Price, coprodutor executivo do álbum, e Andrew Watt, coautor e coprodutor de Danceteria e L.E.S. Girl. As conversas estão disponíveis no site da Billboard e ampliam o olhar sobre os bastidores musicais desta nova etapa da trajetória de Madonna.


Entre os vídeos já publicados, registros assinados por Ricardo Gomes mostram Madonna em estúdio com Stuart Price durante o trabalho em Love Without Words e Love Sensation. Em outra sessão, a artista aparece ao lado de Cirkut e Andrew Watt na produção de Danceteria.


Já em um terceiro registro, filmado por Nuno Xico, Madonna divide o processo criativo com Stromae na faixa My Sins Are My Savior.


Mais do que uma visita aos bastidores, a série oferece ao público a oportunidade de acompanhar diferentes encontros criativos que deram forma a Confessions II, aproximando os fãs de uma etapa da produção musical que nem sempre chega às telas. Para quem acompanha Madonna há décadas, observar essas sessões também é uma maneira de valorizar o trabalho de estúdio, as parcerias e os detalhes que transformam uma ideia em música.



STUART PRICE

“Love Without Words” e “My Sins Are My Savior”


Após reencontrar Stuart Price, produtor de Confessions on a Dance Floor, durante a Celebration Tour, em 2023 e 2024, Madonna percebeu que ainda havia algo a explorar naquela parceria. Price, responsável pela produção musical da turnê, voltou ao estúdio com a artista e, depois da segunda sessão de trabalho, uma nova possibilidade começou a tomar forma: a continuação de um dos álbuns mais emblemáticos de sua carreira.


Para Price, no entanto, a criação de Confessions II nunca teve como objetivo simplesmente revisitar o passado. A proposta era explorar novos caminhos, preservando a conexão musical espontânea que sempre marcou o trabalho dos dois.


“Não se tratava de voltar atrás. Tratava-se de descobrir novos territórios.”

Em entrevista à Billboard, Price destacou que a consciência da importância de Confessions estava presente durante o processo, mas sem a intenção de reproduzir uma fórmula já conhecida.


“Isso nos lembrou o quanto a conexão musical é instintiva. Nós gostamos de criar juntos.”

Em um registro de estúdio com Stuart Price, Madonna discute versos, ponte e vocais de faixas de Confessions II, revelando como a construção de uma música depende tanto da intuição quanto da disposição para rever escolhas.
Em um registro de estúdio com Stuart Price, Madonna discute versos, ponte e vocais de faixas de Confessions II, revelando como a construção de uma música depende tanto da intuição quanto da disposição para rever escolhas.

Em um dos novos vídeos de bastidores de Confessions II, Madonna e Stuart Price nos levam para dentro de uma sessão de “Love Without Words” e “My Sins Are My Savior”. Mais do que um registro promocional, o vídeo oferece um vislumbre da relação entre experiência, intuição e experimentação que sustenta o trabalho de criação.


A discussão passa pelos vocais, pelos efeitos eletrônicos e, principalmente, pela estrutura das composições. Madonna questiona a organização dos versos e considera a possibilidade de uma ponte, buscando uma construção que faça mais sentido musicalmente. Em determinado momento, resume sua posição com uma frase direta: “A introdução é um verso.” A observação revela uma artista que não aceita automaticamente as soluções encontradas, mesmo quando elas parecem funcionar.


Há algo especialmente interessante nisso. Depois de décadas de carreira, Madonna continua disposta a questionar a própria música. A experiência não elimina a necessidade de experimentar; talvez até torne mais precisas as perguntas. Conhecer os caminhos da música pop não significa repetir fórmulas, mas reconhecer quando uma composição ainda pode encontrar uma forma melhor.


O vídeo também nos aproxima de uma dimensão que raramente fazia parte da experiência do público. Durante muito tempo, conhecíamos principalmente o resultado: o álbum nas lojas, os singles nas rádios, os videoclipes e as entrevistas que acompanhavam cada lançamento. O processo criativo permanecia, em grande medida, restrito ao estúdio. Hoje, esses registros passam a integrar a própria narrativa de uma era, oferecendo novas perspectivas sobre músicas que já conhecemos.


É justamente aí que Love Without Words ganha outro significado. Acompanhamos uma composição cujo título evoca aquilo que existe para além das palavras, enquanto seus criadores demonstram que até mesmo uma canção precisa encontrar sua própria estrutura para expressar o que pretende. O interesse não está em descobrir todos os seus segredos, mas em perceber o trabalho que existe por trás de algo que, ao chegar aos nossos ouvidos, parece tão natural.


Talvez seja essa uma das funções dos novos bastidores de Confessions II: prolongar a experiência do álbum sem depender necessariamente de uma nova música ou de outro lançamento. A obra permanece a mesma, mas nossa relação com ela pode mudar. E Madonna, com décadas de carreira e ainda disposta a rever suas escolhas, nos lembra que a criação não termina quando se aprende a fazer. Às vezes, ela começa novamente quando se decide questionar aquilo que já parecia resolvido.



ANDREW WATT

“Danceteria”


Em um breve registro de estúdio com Andrew Watt, Madonna revisita a energia de Nova York e o espírito de uma pista de dança enquanto a construção de Confessions II revela que, às vezes, criar também significa aprender a deixar espaço.
Em um breve registro de estúdio com Andrew Watt, Madonna revisita a energia de Nova York e o espírito de uma pista de dança enquanto a construção de Confessions II revela que, às vezes, criar também significa aprender a deixar espaço.

Se no encontro com Stuart Price acompanhamos Madonna questionando a estrutura de Love Without Words, o breve registro com Andrew Watt nos apresenta outra etapa do processo criativo de Confessions II. Desta vez, o assunto é Danceteria, faixa cujo título evoca um dos espaços mais emblemáticos da noite nova-iorquina e uma época em que a música, a dança e a experimentação ajudaram a definir a identidade artística de Madonna.


Andrew aparece entusiasmado, envolvido nas possibilidades da produção, enquanto a conversa percorre questões de ritmo, instrumentação e espaço sonoro. Madonna demonstra preferência por uma sonoridade menos carregada, observando que a música precisa de espaço para respirar. Em determinado momento, a discussão passa pelo equilíbrio entre a base instrumental e a voz, sintetizado numa advertência bem-humorada:


“Regra número um: não atropele meus vocais.” 

A frase é breve, mas diz muito sobre a atenção que a cantora dedica à própria presença dentro da composição.


O registro também tem seus momentos de descontração e alguma confusão, sem oferecer respostas definitivas sobre o caminho escolhido para a faixa. Talvez seja justamente essa a característica mais interessante do vídeo: não estamos diante de uma explicação organizada sobre como uma música nasceu, mas de fragmentos de um processo ainda em andamento. As ideias aparecem, são testadas e, por vezes, parecem exigir um pouco mais de clareza antes de encontrar seu lugar.


Em uma das reflexões mais sugestivas do episódio, surge a imagem de ideias que chegam ao estúdio em formas amorfas, como pedras preciosas que, durante o processo de seleção, acabam transformadas em quadrados. A metáfora descreve um dilema conhecido da criação artística: ao organizar uma ideia para torná-la funcional, existe sempre o risco de eliminar parte daquilo que a tornava especial. Encontrar a forma certa não significa necessariamente acrescentar mais elementos. Às vezes, significa preservar o que há de espontâneo e inesperado.


É um vislumbre breve, mas suficiente para nos lembrar de que uma era pop também é construída por tentativas, conversas e escolhas que nem sempre chegam ao público. Ao abrir as portas do estúdio, Madonna permite que acompanhemos um pouco desse percurso. E, mesmo quando o vídeo não revela todas as respostas, resta a curiosidade de ouvir a música novamente, agora com a lembrança de que, por trás da pista de dança, houve um processo de criação tão humano quanto meticuloso.


Andrew Watt celebrou o lançamento de Confessions II em seu Instagram, destacando a experiência de trabalhar ao lado de Madonna, Cirkut e Stuart Price na criação de duas faixas do álbum.


“CONFESSIONS II, de @madonna, já está disponível! Foi muito divertido criar DANCETERIA e L.E.S. Girl ao lado dos incríveis @cirkut e @stuartpriceofficial. M, você continua inspirando todos nós. Obrigado por me permitir fazer parte, ainda que pequena, deste álbum magnífico. Escrever letras com você, com a guitarra nas mãos, é uma das maiores felicidades que eu poderia experimentar na vida. EVERYBODY GET UP AND DANCE"


STROMAE

“My Sins Are My Savior”


Ao lado de Stromae, Madonna explora a interpretação em francês, brinca com referências culturais e revela outra dimensão do processo criativo de Confessions II.
Ao lado de Stromae, Madonna explora a interpretação em francês, brinca com referências culturais e revela outra dimensão do processo criativo de Confessions II.

Se os encontros com Stuart Price e Andrew Watt revelam aspectos da arquitetura musical de Confessions II, o registro com Stromae nos aproxima de outra dimensão da criação: a relação entre a palavra, a interpretação e a identidade de uma canção. Em torno de My Sins Are My Savior, o estúdio se transforma num espaço de experimentação linguística, referências culturais e conversas que alternam concentração e humor.


A primeira questão surge com a frase em francês Mes péchés m'ont sauvé, cuja formulação é discutida durante a sessão. Não basta que as palavras transmitam uma ideia; elas também precisam soar naturais e funcionar musicalmente. A conversa avança entre ajustes de pronúncia e possibilidades de interpretação, até que a língua deixa de ser apenas um veículo para a letra e passa a integrar a própria construção da música.


Mas é a descontração entre os participantes que dá personalidade ao episódio. As referências ao Marquês de Sade, ao cinema francês e a Alain Delon provocam brincadeiras sobre o repertório cultural de cada um. Em determinado momento, a falta de familiaridade com algumas dessas referências vira motivo de provocação, acompanhada da percepção bem-humorada de que aquela conversa está sendo registrada para a posteridade. O estúdio também é lugar de convivência, afinal, e nem todo momento precisa produzir uma revelação musical extraordinária.


Há algo interessante nessa aproximação entre idiomas e universos culturais. Madonna, uma artista cuja carreira sempre atravessou fronteiras musicais e estéticas, aparece num processo em que a interpretação exige atenção não apenas ao significado, mas também à sonoridade e à naturalidade das palavras. O francês precisa encontrar seu lugar dentro da música, sem perder a intenção que a composição pretende transmitir.


O vídeo é breve e não oferece uma visão completa da construção de My Sins Are My Savior. Seu valor está menos em revelar grandes decisões de produção do que em registrar uma colaboração acontecendo diante das câmeras, com suas pequenas descobertas, referências compartilhadas e momentos de descontração.


A música continua sendo o centro de tudo, mas os registros nos lembram de que uma era também é feita das pessoas, das conversas e dos universos culturais que se encontram antes de a obra chegar aos nossos ouvidos.



ARCA

“What Will Save Me” - Trecho inédito


Entre experimentações vocais, imagens íntimas e uma letra que parece procurar sentido na dor, o encontro com Arca revela um lado mais espontâneo e imprevisível de Confessions II.
Entre experimentações vocais, imagens íntimas e uma letra que parece procurar sentido na dor, o encontro com Arca revela um lado mais espontâneo e imprevisível de Confessions II.

O registro com Arca talvez seja um dos mais reveladores dessa série justamente porque não parece preocupado em explicar demais. Entre trechos de I Feel So Free, The Test e uma passagem inédita que os fãs associam a What Will Save Me, acompanhamos Madonna experimentando palavras, ajustando versos e descobrindo possibilidades em tempo real.


Aqui, o processo criativo não se apresenta como uma sequência organizada de decisões, mas como um território de tentativa, humor e intuição.


É no trecho inédito que encontramos um dos momentos mais interessantes do vídeo. A letra, ainda em construção, traz imagens de dificuldade, perda e entrega:


“I'll go, I'll go places where it's hardest.

I was in the blood of the music.

I'll get down on my knees if we lose it.

I know, I know this is where it started

every fucking time, every fucking time.

I'll go, I'll go to places where it's hardest.”



A repetição de “I'll go places where it's hardest”, algo como “vou a lugares onde tudo é mais difícil”, sugere uma disposição para enfrentar justamente aquilo que exige mais de nós. Em seguida, a imagem de estar “in the blood of the music” aproxima a música de algo visceral, uma experiência que não se observa de fora, mas que atravessa o corpo. Já a possibilidade de se ajoelhar caso aquilo se perca introduz uma dimensão de vulnerabilidade. A letra parece oscilar entre resistência e rendição, como se a dificuldade de abandonar algo importante fosse parte inseparável da experiência de vivê-lo.


É importante lembrar que estamos diante de um fragmento captado durante o processo criativo, e não de uma letra oficialmente confirmada em sua versão final. Ainda assim, o trecho oferece material para reflexão, especialmente quando ouvido no contexto de uma artista cuja trajetória envolve revisitar constantemente os próprios limites. A repetição de “every fucking time” acrescenta exasperação à passagem, como se a personagem da canção reconhecesse um padrão que insiste em se repetir. Não sabemos ainda a que situação específica esses versos se referem, mas há uma tensão entre voltar ao lugar mais difícil e reconhecer que tudo começou ali.


Também chama a atenção a liberdade com que Madonna e Arca transitam entre idiomas, referências e pequenas provocações. A conversa sobre aprender espanhol e dançar flamenco termina com uma despedida afetuosa nessa língua. “Eres la reina preciosa”, diz Arca, chamando Madonna de uma rainha preciosa. É um encerramento simples, mas que deixa transparecer a cumplicidade entre os dois.


O encontro faz sentido dentro de uma carreira que nunca se manteve isolada em uma única linguagem musical. Arca traz para o universo de Madonna uma sensibilidade experimental, enquanto Madonna continua demonstrando curiosidade e disposição para testar caminhos. O vídeo não oferece uma explicação definitiva sobre como cada faixa foi construída, nem precisa oferecer. Seu interesse está em mostrar a música acontecendo antes de se transformar em produto acabado.


Esta é justamente a força dessa sequência de bastidores de Confessions II. Depois de décadas acompanhando Madonna por meio de discos, videoclipes, entrevistas e apresentações, o público recebe acesso a uma dimensão diferente: a artista que erra, pergunta, ri, testa uma palavra e volta a cantar. A era deixa de ser apenas aquilo que chega às plataformas e aos palcos. Passa a incluir também os pequenos momentos que normalmente desapareceriam quando o trabalho estivesse concluído.



FEID

“Read my Lips”


Ao lado de Feid, Madonna questiona a estrutura convencional de uma canção e defende a possibilidade de experimentar diferentes caminhos antes de chegar à versão definitiva.
Ao lado de Feid, Madonna questiona a estrutura convencional de uma canção e defende a possibilidade de experimentar diferentes caminhos antes de chegar à versão definitiva.

Os encontros anteriores de Confessions II nos levaram por experimentações vocais, jogos de linguagem e momentos de descontração, no entanto, a sessão com Feid traz uma discussão particularmente interessante sobre estrutura musical. Em Read My Lips, o foco está na maneira como uma música pode surpreender o ouvinte quando abandona o caminho que ele já aprendeu a reconhecer.


O momento central acontece quando a equipe discute o retorno ao refrão depois de uma nova seção. A observação é simples: naquele ponto, o público já ouviu aquele refrão antes. Depois de entrar em uma dimensão diferente da música, por que voltar exatamente ao lugar esperado? A proposta é continuar explorando a nova direção, em vez de obedecer à estrutura convencional de uma canção pop.


É nesse contexto que surge uma das falas mais interessantes do episódio: “There's a world where different versions of songs exist”. Existe um mundo em que diferentes versões das músicas podem existir. A ideia resume uma inquietação que acompanha a própria história de Madonna: a recusa em tratar fórmulas conhecidas como regras imutáveis. Uma composição pode ter caminhos alternativos, seções que mudam de lugar e soluções que desafiam a expectativa criada pelos primeiros minutos de audição.


Madonna também participa ativamente dos ajustes, sugerindo a reutilização de uma amostra vocal de “Shut your mouth” em outros pontos da faixa e pedindo a inclusão de uma guitarra espanhola. A conversa passa por novas possibilidades de arranjo, enquanto o humor aparece em comentários sobre os ingredientes necessários para dar mais personalidade à música. A chamada “Stewart sauce” é uma referência divertida ao produtor Stuart Price, cuja assinatura sonora continua sendo parte importante do universo de Confessions II.


O vídeo é curto, mas oferece um vislumbre valioso de como as decisões de produção dependem tanto da composição quanto da disposição para questioná-la. Nem toda ideia apresentada durante uma sessão precisa sobreviver à edição final. O interessante é observar que o processo permanece aberto, mesmo quando a música já parece ter uma estrutura definida.



PARISI

“Love Without Words”


No encontro com Parisi, Madonna revisita uma das faixas de Confessions II e mostra como pequenos ajustes, ideias inesperadas e a química entre colaboradores ajudam a dar forma a uma canção.
No encontro com Parisi, Madonna revisita uma das faixas de Confessions II e mostra como pequenos ajustes, ideias inesperadas e a química entre colaboradores ajudam a dar forma a uma canção.

Encerrando nossa sequência de registros de estúdio, o encontro com Parisi retoma Love Without Words, faixa que já apareceu nos bastidores com Stuart Price. A escolha é interessante porque permite observar a mesma música sob outra perspectiva: se o primeiro vídeo destacou Madonna questionando a estrutura da composição, aqui o foco está nos detalhes de produção, na sobreposição dos vocais e na maneira como cada elemento pode ganhar mais espaço dentro do arranjo.


Madonna acompanha de perto as mudanças, pede cortes e reorganizações de trechos e sugere que determinadas frases sejam distribuídas de outra maneira. Em um momento, propõe alternar “sister to me” e “brother to me”, trabalhando a repetição das palavras como parte da construção musical. Em outro, questiona a interrupção de uma seção de subgrave e discute como a expressão “come to the club” aparece repetidamente. São pequenos detalhes, mas é justamente nesse trabalho minucioso que uma faixa encontra sua identidade.


O vídeo também revela uma dimensão afetiva da colaboração. Madonna demonstra entusiasmo com o trabalho de Marco, integrante do duo Parisi, e comenta como consegue reconhecer a personalidade musical dos colaboradores naquilo que escuta. Ao falar sobre a música que Stuart Price havia apresentado, ela diz que conseguia sentir tanto a presença dele quanto a de Marco. É uma observação breve, mas significativa: em um processo coletivo, a identidade de cada produtor não desaparece dentro da composição. Ela se mistura às demais até formar algo novo.


Entre ajustes de volume, sugestões para tornar uma transição mais extrema e brincadeiras que interrompem a concentração, o ambiente parece descontraído. O grupo ri, conversa e celebra o trabalho realizado. A espontaneidade não elimina o rigor. Madonna continua ouvindo criticamente, identificando o que precisa mudar e propondo novas possibilidades, mesmo quando todos parecem satisfeitos com o resultado.


Há uma ironia bonita em encerrar essa jornada de bastidores justamente com Love Without Words. Ao longo dos vídeos, vimos Madonna discutir versos, questionar estruturas, experimentar idiomas e negociar detalhes de produção. Agora, acompanhamos mais uma etapa de uma música que, apesar do título, depende de inúmeras conversas para existir. Antes de chegar ao público como uma experiência aparentemente espontânea, ela passa por decisões, dúvidas, repetições e encontros entre diferentes sensibilidades.


Essa é a razão mais interessante de revisitar Confessions II por meio desses registros. O álbum já está disponível, as canções já encontraram seus ouvintes, mas a experiência não termina no lançamento. Ao abrir as portas do estúdio, Madonna transforma o processo em parte da própria narrativa da era. Não estamos apenas ouvindo as músicas: estamos conhecendo um pouco das relações, das escolhas e da energia que ajudaram a construí-las.


Para quem acompanha a artista há décadas, essa possibilidade tem um valor especial. Durante muito tempo, o público recebia a obra pronta e precisava imaginar o que havia acontecido até ali.


Hoje, os bastidores também fazem parte da experiência cultural. E, no caso de Madonna, ver uma canção tomar forma é mais uma maneira de acompanhar uma artista que continua encontrando novas perguntas para fazer à própria música.

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