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Madonna, Paul McCartney e os Rolling Stones: o tempo ainda toca a favor deles?

9 de out.
4 min de leitura

Quase quatro décadas depois de dividirem a mesma corrida pelo Grammy, três gigantes da música voltam à conversa sobre Álbum do Ano. Em uma indústria obcecada pela novidade, será que ainda existe espaço para quem ajudou a escrever a história?


Madonna, Paul McCartney e os Rolling Stones: o tempo ainda toca a favor deles?

Existe algo fascinante em perceber que artistas que fizeram parte da formação musical de diferentes gerações continuam lançando discos, movimentando o mercado e disputando espaço nas principais premiações do mundo. Madonna, Paul McCartney e os Rolling Stones não precisam provar que pertencem à história da música popular. Seus nomes já estão inscritos nela. Ainda assim, em 2026, os três voltam a ocupar a mesma conversa, impulsionados por novos trabalhos que podem levá-los à disputa pelo Grammy de Álbum do Ano em 2027. A coincidência chamou a atenção da Billboard, que analisou as possibilidades de Confessions II, Foreign Tongues e The Boys of Dungeon Lane na corrida pela principal categoria da premiação.



A última e única vez em que Madonna, McCartney e os Rolling Stones foram indicados ao Grammy no mesmo ano foi em 1987. Quase quarenta anos depois, o reencontro em torno de novos álbuns levanta uma questão que vai além das previsões para a próxima cerimônia: como uma indústria que vive da descoberta de novos talentos reconhece artistas que atravessaram tantas décadas sem deixar de produzir? A resposta também passa por uma discussão cada vez mais presente na sociedade, o etarismo, que associa o envelhecimento à perda de relevância e transforma a juventude em uma espécie de requisito permanente para continuar ocupando espaços de destaque.


Na música, essa contradição é particularmente interessante. Ao mesmo tempo que artistas jovens são celebrados por inaugurar tendências, nomes veteranos frequentemente precisam enfrentar a ideia de que seus melhores trabalhos ficaram para trás. Como se a criatividade tivesse prazo de validade, ou como se a passagem do tempo diminuísse automaticamente a capacidade de experimentar, provocar e surpreender. A longevidade, porém, não deveria ser confundida com acomodação. O desafio está em reconhecer o que esses artistas ainda têm a dizer, sem transformar suas conquistas passadas em um salvo-conduto para qualquer lançamento futuro.


É justamente nesse ponto que a análise da Billboard ganha relevância. A reportagem observa que a familiaridade dos votantes com artistas consagrados pode favorecer sua presença na disputa, especialmente em uma categoria tão abrangente quanto Álbum do Ano. Afinal, Madonna, McCartney e os Stones carregam décadas de reconhecimento público, influência musical e presença cultural. Mas uma indicação não deveria ser apenas uma homenagem à trajetória. Ela também precisa refletir a força do trabalho apresentado naquele momento, sua capacidade de dialogar com o presente e o lugar que ocupa entre os lançamentos do ano.


No caso de Madonna, essa conversa tem um significado especial. Confessions II recupera um universo musical associado a uma das fases mais celebradas de sua carreira, mas chega depois de décadas de reinvenções que atravessaram a música, a moda, o comportamento e a própria maneira como uma mulher pode exercer controle sobre sua imagem e sua obra. A cantora não construiu sua história permanecendo confortável em um único lugar. Ao contrário, sua trajetória foi marcada pela disposição de mudar, provocar e enfrentar expectativas. Por isso, a discussão sobre sua presença no Grammy não precisa se apoiar apenas na nostalgia: o interesse está também no que ela apresenta agora e na maneira como esse novo trabalho encontra seu público.



Essa relação entre passado e presente nos leva a outra lembrança especial. No MTV Video Music Awards de 1999, Madonna apresentou Paul McCartney ao público antes de ele participar da entrega do prêmio de Vídeo do Ano. Naquela mesma noite, ela celebrava o reconhecimento de Beautiful Stranger, enquanto McCartney já carregava décadas de história desde os Beatles e seguia construindo sua trajetória solo. O encontro reuniu duas figuras que ajudaram a definir capítulos diferentes da música popular, mas que compartilhavam algo essencial: a capacidade de permanecer relevantes muito depois de seus primeiros grandes momentos. Rever esse episódio hoje é perceber como a história da música não se organiza em gerações isoladas. Ela é feita de encontros, influências e artistas que continuam dialogando entre si, mesmo quando o mundo ao redor muda completamente.


Os Rolling Stones também representam essa permanência. Sua ligação com o rock e o blues atravessou gerações, influenciando músicos que cresceram ouvindo seus discos e artistas que talvez nem tivessem nascido quando a banda começou a construir sua reputação. McCartney, por sua vez, continua associado a uma das obras de composição mais influentes da música contemporânea. Madonna, os Stones e Paul não ocupam o mesmo lugar artístico, mas compartilham uma condição rara: seus lançamentos ainda despertam atenção para além da curiosidade histórica. Isso não garante indicações ou prêmios, mas demonstra que suas carreiras continuam em movimento.


Talvez seja esse o aspecto mais interessante da discussão proposta pela Billboard. Em vez de perguntar apenas se 2027 será um bom ano para artistas veteranos, podemos nos perguntar por que ainda parece necessário justificar a presença deles em uma disputa com músicos mais jovens. O Grammy precisa reconhecer a produção contemporânea, descobrir novos talentos e acompanhar as transformações da música. Mas nada disso exige que o passado seja tratado como um território encerrado, muito menos que a idade seja usada como medida de relevância.


No fim das contas, não se trata de escolher entre juventude e experiência, como se uma precisasse ocupar o lugar da outra. Trata-se de permitir que diferentes gerações sejam avaliadas por aquilo que produzem, sem preconceitos e sem privilégios automáticos. Se Madonna, Paul McCartney e os Rolling Stones chegarem à lista de indicados ao Grammy de 2027, será interessante observar como seus trabalhos serão recebidos diante de uma concorrência que representa outros momentos e linguagens da música popular.


E talvez exista uma pequena ironia nisso tudo: artistas que passaram décadas ajudando a definir o que seria a música do futuro agora precisam disputar espaço em uma indústria que, por vezes, parece ter memória curta. Felizmente, a música tem uma maneira própria de resistir ao esquecimento. Ela atravessa gerações, reaparece em novas pistas, ganha outras interpretações e encontra ouvidos que ainda não existiam quando suas primeiras notas foram gravadas. Madonna, McCartney e os Stones conhecem bem esse caminho. O tempo passou, o mundo mudou e novas vozes chegaram. Mas a história continua tocando, e eles ainda têm música para colocar nessa conversa.


Fonte: Billboard, Eric Renner Brown, “Why Madonna, The Rolling Stones and Paul McCartney Could Be Grammy Dark Horses”.


Redação: Sergio Paiva/Equipe Madonna Literal

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