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Quando uma porta se fecha, a gente encontra outro palco

2 de out.
6 min de leitura

Atualizado: há 5 dias

Cinco vezes em que disseram que Madonna tinha ido longe demais. E por que essa história também diz alguma coisa sobre o Madonna Literal.


Quando uma porta se fecha, a gente encontra outro palco

Há momentos em que uma história parece estar prestes a terminar. Às vezes, isso acontece porque alguém decide que já não há mais espaço para aquela história. Às vezes, porque uma porta se fecha. E, algumas vezes, simplesmente porque o mundo parece dizer que chegou a hora de parar.


Madonna conhece bem essa sensação. Ao longo de mais de quatro décadas, houve momentos em que sua carreira pareceu estar por um fio. Houve críticas, boicotes, escândalos, controvérsias e decisões que fizeram muita gente acreditar que, daquela vez, ela finalmente tinha ido longe demais. Curiosamente, quase sempre foi justamente dali que surgiu uma nova versão de Madonna.

Hoje, o Madonna Literal também atravessa um desses momentos. Nosso Instagram foi suspenso e, enquanto escrevemos este texto, ainda não sabemos se teremos novamente acesso à conta. É uma situação frustrante, especialmente porque aquela página não era apenas um espaço para publicar notícias, fotos, vídeos ou textos sobre Madonna. Ela foi, ao longo dos anos, o lugar onde uma comunidade inteira se encontrou.


São mais de 242 mil pessoas. São anos de trabalho. São histórias, traduções, pesquisas, madrugadas, discussões, escolhas editoriais, erros corrigidos, ideias que deram certo e outras que ficaram pelo caminho. E, principalmente, são nove pessoas trabalhando para que uma mesma voz exista.


O curioso é que Madonna já nos ensinou algumas vezes que uma voz não depende de um único palco.


Os cinco episódios abaixo não aparecem aqui como uma lista de escândalos da carreira de Madonna. Eles são pequenas lembranças de uma trajetória que sempre encontrou uma maneira de continuar quando determinado caminho parecia ter chegado ao fim.


1984: quando o vestido caiu


No primeiro VMA da história, Madonna ainda estava construindo sua carreira quando o inesperado aconteceu durante Like a Virgin: ao tentar recuperar o sapato que havia escapado de seu pé, seu vestido acabou se deslocando e transformou uma apresentação planejada em um dos momentos mais comentados daquela noite. Décadas depois, ela relembrou que seu empresário chegou a acreditar que aquilo poderia ter acabado com sua carreira.


O que parecia um desastre para uma artista em ascensão acabou se transformando em uma das imagens mais conhecidas da história do VMA. Talvez seja justamente essa a primeira lição: um momento pode sair do controle sem que a história inteira saia junto.


1989: Pepsi, cruzes em chamas e uma crise mundial


Cinco anos depois, Madonna já era uma estrela, mas Like a Prayer colocou sua carreira diante de uma controvérsia de proporções muito maiores. O videoclipe misturava símbolos religiosos, sexualidade e cruzes em chamas, provocando reações de grupos religiosos e levando a Pepsi a abandonar sua campanha com a cantora depois da repercussão.


Naquele momento, parecia que Madonna havia cruzado uma linha que poderia ter consequências duradouras. A música, porém, continuou existindo, o álbum se tornou um marco de sua discografia e a própria controvérsia acabou incorporada à história da artista. A porta da Pepsi se fechou, mas a carreira continuou encontrando outras portas.


1992: Sex e a provocação sem volta


Em 1992, Madonna levou sua provocação para outro território com Sex, um livro de fotografias que confrontava diretamente os limites culturais e morais daquele período. A reação foi intensa e, durante algum tempo, parecia que a artista havia ultrapassado uma fronteira da qual seria difícil retornar, especialmente porque o projeto chegou acompanhado de Erotica e de uma imagem pública deliberadamente provocadora.


O tempo, entretanto, transformou a perspectiva. O que naquele momento era tratado essencialmente como escândalo passou a ser revisitado como parte importante da trajetória artística de Madonna. Nem toda crise desaparece imediatamente, mas algumas acabam mudando de significado com o passar dos anos.


2003: quando Madonna recuou


Com American Life, Madonna entrou em um terreno diferente, aproximando sua música e sua imagem das discussões políticas de um país envolvido na Guerra do Iraque. O videoclipe original, considerado controverso demais naquele contexto, acabou sendo retirado pouco antes de sua estreia nos Estados Unidos e substituído por uma versão mais branda.


Foi um momento particularmente interessante porque Madonna, tantas vezes associada à ideia de nunca recuar, decidiu mudar de estratégia. E isso também faz parte de sua história: continuar não significa necessariamente insistir no mesmo caminho; às vezes, significa reconhecer que é hora de procurar outro.


2015: quando Madonna literalmente caiu


Talvez nenhum episódio represente melhor essa ideia do que a queda de Madonna no Brit Awards de 2015. Durante Living for Love, em seu retorno à premiação depois de duas décadas, uma falha na capa fez com que a cantora fosse puxada para trás e caísse pelos degraus do palco. Por alguns segundos, Madonna estava no chão, o microfone havia caído e a apresentação parecia ter chegado ao fim. Ela se levantou, recuperou o microfone e continuou cantando, justamente enquanto a música dizia:


“I took you to heaven and let you fall down”  e “I learned to lose, I learned to win”.*
“Eu te levei ao céu e deixei você cair.” e “Aprendi a perder, aprendi a vencer.”

A queda se tornou emblemática porque, em poucos segundos, a metáfora virou realidade: Madonna caiu e, diante de milhões de pessoas, simplesmente continuou. Hoje, é impossível não lembrar daquela cena. Às vezes, a queda não é o fim da apresentação. É apenas o momento em que precisamos decidir se continuamos cantando.


O palco pode desaparecer. A voz, não.


É por isso que esta crônica não é exatamente sobre Madonna. Ou, pelo menos, não é apenas sobre ela.


O Madonna Literal está, neste momento, sem aquele que foi durante anos o nosso principal palco. Não sabemos que dia ele será devolvido, quando isso acontecerá ou se será possível reconstruir exatamente o espaço que construímos ali. Mas sabemos que o Madonna Literal nunca foi o Instagram. O Instagram foi uma ferramenta importante, enorme e fundamental para chegarmos a tantas pessoas, mas continua sendo uma ferramenta.


O que existe por trás dela é muito maior: existe um time de nove pessoas, existe uma maneira de fazer conteúdo sobre Madonna que fomos construindo ao longo dos anos, existe uma política de respeito pela artista e pelo público e existe uma comunidade que cresceu junto conosco. Existem, principalmente, 242 mil pessoas que em algum momento decidiram apertar o botão de seguir porque encontraram ali alguma coisa que queriam continuar acompanhando.


Isso não desaparece porque uma conta foi suspensa.


Madonna já nos ensinou algumas vezes que não existe garantia de permanência em nenhum palco. A indústria mudou, a televisão mudou, a imprensa mudou, a música mudou e as plataformas mudaram, mas ela continuou encontrando maneiras de existir dentro dessas transformações. Nós também vamos encontrar a nossa.


De um em um


Durante muito tempo, tivemos o privilégio de falar com 242 mil pessoas de uma vez. Era um número impressionante, mas nunca enxergamos aqueles seguidores apenas como números, porque sabemos que cada pessoa chegou ao Madonna Literal por uma razão diferente: uma música, um álbum, um clipe, uma lembrança, uma descoberta recente ou simplesmente o desejo de acompanhar Madonna através de um espaço que compartilha a mesma admiração.


Se não pudermos falar com 242 mil pessoas de uma vez, tudo bem. Falaremos de um em um.

Voltaremos a encontrar quem estava conosco, reconstruiremos caminhos, publicaremos onde for possível e criaremos novos espaços para continuar fazendo aquilo que fazemos. Talvez seja mais trabalhoso, talvez leve tempo e talvez seja estranho depois de tantos anos acostumados a alcançar uma multidão com um único clique, mas uma comunidade nunca foi construída apenas pelo alcance de uma publicação. Ela se constrói pela presença, pela confiança, pela memória e pela continuidade.


E é assim que Madonna chegou até aqui também: uma música de cada vez, um disco de cada vez, um palco de cada vez, uma reinvenção de cada vez.

Se for preciso, nós faremos o mesmo.


Falávamos para 242 mil. E temos certeza que continuamos falando, poisno fim, tudo dá certo uma vez que tudo no Madonna Literal é movido por muito amor e o amor sempre vence.


Porque uma plataforma pode tirar um palco, pode suspender uma conta e pode interromper uma transmissão, mas não pode apagar os anos que vieram antes dela. Muito menos pode decidir quando uma história termina.


Madonna já ouviu essa frase algumas vezes.


Nós também sabemos que ainda temos muita coisa para dizer.


Nota do redator: É com um misto de tristeza e esperança que entendo que talvez seja isso que reste quando todos os números desaparecem, quando uma conta deixa de existir, quando um palco se apaga e quando aquilo que parecia permanente deixa de estar ao alcance de um clique. Sobreviver não significa voltar exatamente para o lugar de onde fomos tirados. Significa carregar conosco tudo aquilo que construímos, as pessoas que encontramos pelo caminho e a vontade de continuar dizendo aquilo que ainda precisa ser dito. O Madonna Literal pode ter perdido, por enquanto, o lugar onde falava com 242 mil pessoas, mas não perdeu sua voz. E se precisarmos começar novamente, começaremos. De um em um, de história em história, até que a nossa voz encontre novamente quem estava do outro lado. Porque algumas coisas podem ser suspensas. Uma história construída com amor, trabalho e tempo não.


Eu morri mil vezes. Consegui sobreviver. Não posso desmoronar agora. Não posso suportar isso. Eu me levanto!!
Eu morri mil vezes. Consegui sobreviver. Não posso desmoronar agora. Não posso suportar isso. Eu me levanto!!

Redação: Sergio Paiva/Equipe Madonna Literal




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