top of page
Buscar

CONFESSIONS II: UMA NOITE INTEIRA NA VIDA DE MADONNA

2 de set.
7 min de leitura

Talvez a melhor maneira de ouvir Confessions II seja não tentar entender imediatamente o que Madonna está dizendo, mas simplesmente entrar na história. Entrar na pista de dança, deixar as luzes baixarem, sentir o grave atravessar o corpo e, por algumas horas, esquecer que existe um mundo lá fora. É exatamente assim que o álbum começa: luminoso, pulsante, cheio de movimento, desejo e liberdade, mas esse é só o começo de uma grande jornada que você acompanha a seguir.

Então, Deixe seus problemas para trás, as contas, as obrigações e todo esse peso. Vem comigo.


CONFESSIONS II: UMA NOITE INTEIRA NA VIDA DE MADONNA
Come on meet me on the dance floor

Em “I Feel So Free”, Madonna abre as portas e nos convida para dentro de um lugar onde ninguém precisa ser exatamente quem é durante o dia. Na pista de dança, podemos mudar de pele, inventar uma nova versão de nós mesmos e desaparecer entre as pessoas.


E talvez não seja por acaso que essa seja a primeira confissão. Madonna sempre entendeu a pista de dança como um espaço de transformação, um lugar onde o movimento pode substituir as palavras e onde podemos abandonar, ainda que por algumas horas, as expectativas que carregamos. Ao falar sobre o processo de criação de Confessions II, porém, ela revelou que o ponto de partida estava justamente do outro lado dessa celebração:

“I went through all this darkness in the beginning” — “Eu passei por toda essa escuridão no começo” (Interview Magazine).

Antes de encontrar a luz, portanto, Madonna precisou atravessar a escuridão. Mas primeiro precisamos dançar, porque Confessions II não começa pesado. Começa luminoso.


A PRIMEIRA METADE DA NOITE


Depois da liberdade vem o amor. Em “Good For The Soul”, Madonna ainda está olhando para cima e reconhecendo que existem pessoas, sentimentos e pequenas experiências que nos sustentam quando tudo ao redor parece pesado. A música fala de respirar, sentir, deixar o corpo existir e reconhecer que algumas pessoas são parte essencial daquilo que somos. Em seguida, “One Step Away” mantém a ideia de liberdade, mas começa a introduzir as primeiras sombras: a noite, o medo, a salvação e aquilo de que tentamos escapar. A liberdade já não parece simplesmente uma questão de dançar até esquecer os problemas; às vezes, precisamos atravessar aquilo que os assusta para chegar do outro lado.


Então “Bring Your Love” devolve parte da energia ao álbum, mas agora existe uma camada diferente por trás da euforia. Madonna fala sobre continuar fazendo aquilo em que acredita mesmo quando o mundo tenta dizer como ela deveria se comportar, o que deveria produzir ou qual deveria ser seu próximo passo. Ela já não está apenas dizendo I feel so free; está reafirmando que continua livre porque ainda pode escolher quem quer ser. E é justamente nesse momento que a noite começa a mudar de natureza: Madonna olha para trás.

QUANDO A NOITE COMEÇA A VIRAR MEMÓRIA


“Danceteria” é o primeiro grande sinal de que aquela não é apenas uma noite qualquer. A pista deixa de ser simplesmente o lugar onde Madonna dança e passa a ser o lugar onde Madonna nasceu. A música nos leva ao Lower East Side, aos clubes, aos amigos, aos artistas e àquela Nova York onde ela ainda era uma garota tentando descobrir se havia espaço para ela. É como se, no meio da festa, alguém tivesse aberto uma porta para o passado. E talvez seja justamente aí que Confessions II comece a revelar sua verdadeira natureza: Madonna não está simplesmente contando histórias, mas tentando descobrir como essas histórias a transformaram.


Depois de Danceteria, as confissões ficam progressivamente mais pessoais. “Read My Lips” fala de confiança e decepção; “Everything” toca numa ferida ainda mais íntima, mostrando como um relacionamento pode fazer alguém questionar a própria identidade. De repente, aquela mulher que passou a carreira inteira dizendo ao mundo quem era admite que, dentro de uma relação, também pode ter se sentido insuficiente. E então vem “Love Sensation”, como uma espécie de respiro.

Madonna já explicou que nem todas as músicas do álbum são necessariamente confissões. Algumas são simplesmente alegria:


“Love Sensation is just joy” — “Love Sensation é simplesmente alegria” — (PM Studio).

E talvez seja justamente por isso que ela esteja aqui. Porque a vida não é uma linha reta entre trauma e cura; mesmo quando carregamos coisas difíceis, ainda queremos dançar.

MAS A NOITE NÃO CONSEGUE DURAR PARA SEMPRE


Em “Love Without Words”, a pista ainda está cheia, mas Madonna já observa as pessoas ao seu redor de outra maneira. Ela fala sobre aquilo que aprendemos com o mundo, com as pessoas e com tudo o que encontramos pelo caminho. Em “Bizarre”, surge a lembrança de um amor que o tempo não conseguiu apagar completamente; não importa necessariamente quem foi aquela pessoa, mas aquilo que ficou. Alguns relacionamentos terminam, alguns sobrevivem apenas como memória e alguns continuam tão intensos dentro de nós que, anos depois, parecem quase impossíveis de explicar.


Então chegamos a “School”, e Madonna faz algo particularmente bonito: depois de uma vida inteira sendo observada, imitada, julgada e transformada em referência, ela admite que ainda prefere aprender. É uma espécie de humildade no meio da festa, como se estivesse dizendo que ainda não sabe tudo. E talvez essa seja uma das pistas mais importantes para entender o que vem a seguir, porque, se Madonna está disposta a aprender, também está disposta a olhar para aquilo que viveu.


FRAGILE - A GRANDE VIRADA


Então chega “Fragile”, e alguma coisa muda. Não é apenas mais uma música: é o momento em que o álbum parece parar de olhar para a pista de dança e começar a olhar para a vida. Até aqui, Madonna falou de liberdade, amor, desejo, identidade, escolhas, pessoas e memória. Agora ela fala de perda. “Fragile” é sobre seu irmão Christopher Ciccone e, de repente, tudo aquilo que parecia apenas parte de uma noite ganha outra dimensão.


O título deixa de ser apenas uma palavra, porque tudo é frágil: os relacionamentos, a família, o tempo, a possibilidade de pedir desculpas, a oportunidade de dizer alguma coisa antes que seja tarde demais. É por isso que Fragile funciona como o verdadeiro ponto de virada de Confessions II. A partir daqui, Madonna já não está tentando apenas nos fazer dançar; está tentando se lembrar.


Uma análise da BBC Front Row também identifica esse movimento, apontando “Fragile” como uma espécie de ponte entre a parte mais dançante do álbum e as faixas finais, muito mais introspectivas.


E, nesse ponto, uma frase de Madonna sobre a criação do disco ganha ainda mais significado:


“I have to tell a story” — “Eu preciso contar uma história” — (People).

DEPOIS DA FESTA


Depois de “Fragile”, o álbum já não parece acontecer inteiramente no presente. Em “My Sins Are My Savior”, Madonna olha para a própria trajetória e reconhece que passou boa parte da vida procurando seu caminho em lugares desconhecidos, em rostos inesperados e em experiências que talvez outras pessoas considerassem erradas. O que antes poderia ser chamado de pecado agora também pode ser entendido como caminho. Talvez ela não tenha encontrado seu lugar apesar de tudo aquilo, mas justamente por causa de tudo aquilo.


E então vem “Betrayal”, quando a família entra definitivamente na história. A figura da mãe, a madrasta, o ressentimento, a infância, a sensação de perda e aquilo que carregamos durante décadas aparecem de maneira muito mais direta. Mas existe algo ainda mais interessante acontecendo: a própria palavra que dá título à música começa a perder força. Betrayal. Traição. E, depois, sobrevivência. Madonna não consegue mudar o passado, mas consegue mudar a maneira como olha para ele. Talvez essa seja a verdadeira maturidade que aparece na parte final do álbum: não apagar as feridas, mas aprender a viver depois delas.

UMA MÃE DIANTE DA FILHA


Então chegamos a “The Test”, e Madonna não está apenas olhando para trás; está olhando para alguém que está olhando de volta para ela: Lourdes. Mãe e filha dividem a música e, de certa maneira, dividem também a narrativa. Madonna reconhece que, tentando proteger, orientar e preparar a filha para o mundo, também pode ter criado pesos que Lourdes nunca pediu para carregar.


É uma das confissões mais bonitas do álbum justamente porque não existe uma única voz dizendo a verdade. Existem duas. A mãe fala e a filha responde. E talvez seja esse o ponto em que Confessions II deixa de ser apenas uma retrospectiva e se transforma em algo mais universal. Porque Madonna pode ser Madonna, mas também é filha, irmã, mãe, alguém que errou, alguém que perdeu e alguém que ainda está tentando entender algumas coisas.

E ENTÃO ELA VOLTA PARA CASA


Depois de tudo isso, seria estranho terminar Confessions II na pista de dança. Madonna não termina. Ela termina no Lower East Side.


Em “L.E.S. Girl”, desaparecem boa parte das luzes, dos sintetizadores, dos grandes personagens e da imagem da superstar, e encontramos uma garota: uma garota em Nova York, com pouco dinheiro, vivendo pequenos momentos, apaixonando-se, tentando sobreviver, fazendo música e procurando seu lugar. Antes de Madonna existir, existia aquela garota. E talvez seja por isso que o álbum precise terminar exatamente ali, não na Madonna que conhecemos, mas na garota que existia antes dela.


Depois de passar por amor, liberdade, desejo, medo, relacionamentos, identidade, fama, família, perdas, culpa, maternidade e memória, a pergunta já não é mais quem Madonna se tornou. A pergunta é: quem era ela antes de se tornar Madonna? A resposta está no título da última música: L.E.S. Girl, a garota do Lower East Side.


UMA HISTÓRIA. UMA JORNADA.


Agora aquela frase que Madonna disse a Graham Norton ganha outro peso:


“It’s a whole story. It’s a whole journey” — “É uma história inteira. É uma jornada inteira” — (Graham Norton / BBC).

Sim, é uma história e é uma jornada. Começamos na pista de dança, onde Madonna quer ser livre, passamos pelo amor, pelo desejo, pela diversão e pelas pessoas que fizeram parte de sua vida; aos poucos, as luzes diminuem, a música fica mais silenciosa, entram as memórias, os erros, a família, o irmão, a madrasta e a filha. E então, quando parece que chegamos ao fim, Madonna volta para o começo, para a garota que existia antes dela.


A própria Madonna contou que, durante a criação do disco, passou por toda aquela escuridão e depois percebeu que precisava descobrir como sair dela.


“How do we get out of this?” — “Como saímos disso?” — (Interview Magazine).

A resposta, aparentemente, foi dançar. Mas a jornada revelou algo maior: às vezes, para descobrir como seguir em frente, precisamos primeiro voltar ao lugar de onde viemos.


E, no fim da noite, quando todas as luzes se apagam, quando a música termina e a pista finalmente fica vazia, Madonna olha para trás e ainda consegue reconhecer aquela garota.

A L.E.S. Girl.

A garota antes do ícone.

A mulher por trás da lenda.


Redação: Sergio Paiva/Equipe Madonna Literal

Nota da redação: Na modesta opinião deste que vos escreve, parece que Madonna decidiu engavetar o projeto de sua cinebiografia e, em vez de levá-la às telas do cinema, resolveu musicar a própria vida, literalmente prensá-la em um vinil e nos entregar uma trilha sonora para sua história. E, se as musas do Olimpo ouvirem nossas preces, que um dia essa mesma história saia do vinil e vá parar nos palcos, em formato de turnê.



Comentários


©2026 por Madonna Literal. Orgulhosamente criado por Estúdio Telescópio

bottom of page