Madonna, Charli XCX, Troye Sivan e a pista que nunca morre

Há alguma coisa particularmente bonita acontecendo com Madonna neste setembro de 2026. Enquanto uma nova geração do pop se aproxima de sua obra, ela parece fazer o caminho contrário: volta ao lugar onde tudo começou e convida essa geração para entrar.
Na sexta-feira, Madonna e Charli XCX anunciaram Danceteria (Afterhours), remix da faixa de Confessions II que será lançado em 24 de setembro. O anúncio veio acompanhado de um pequeno vídeo das duas dançando e cantando juntas e de uma frase publicada por Madonna:
“Vamos levar isso para o East Side, baby…”
A escolha das palavras diz muito. Danceteria é justamente a música em que Madonna revisita a boate nova-iorquina que frequentava no início dos anos 1980, quando ainda era uma artista tentando fazer seu nome no circuito underground de Manhattan. Foi ali que apresentou Everybody, em 1982, e naquele universo de clubes, DJs, artistas e performers começou a se formar a Madonna que o mundo conheceria poucos anos depois.
É difícil imaginar uma pessoa mais adequada para acompanhá-la nessa viagem do que Charli XCX.
Charli chegou ao pop por uma estrada completamente diferente, começando a lançar música na internet ainda adolescente e passando pela cena rave britânica antes de se transformar em uma das figuras mais interessantes do pop contemporâneo. I Love It, com o Icona Pop, Fancy, com Iggy Azalea, Boom Clap, Vroom Vroom, Pop 2 e finalmente Brat ajudaram a construir uma carreira que sempre transitou entre o mainstream e o experimental.
A própria Charli contou recentemente que sua relação com Madonna mudou à medida que sua percepção sobre música também mudou. Ao explicar quando começou a se interessar mais profundamente pela artista, disse:
“Acho que foi quando comecei a me interessar um pouco mais por como a música é arte, por como ela pode ser artística. Acho que foi aí que começou a minha fase Madonna.”
A primeira música de Madonna que realmente a atingiu, contou ela, foi Hollywood.
O encontro das duas em Paris, em junho, parece ter acelerado tudo. Charli descreveu aqueles dias como uma espécie de “mini pausa” com Madonna:
“Simplesmente não conseguíamos parar de ficar juntas.”
As duas acabaram organizando festas juntas e, segundo Charli, Madonna estava particularmente interessada em conversar sobre:
“A música que ela faz, e como e por que ela faz.”
Sobre a experiência, Charli resumiu:
“Achei muito inspirador passar esse tempo com ela.”
Há uma ironia deliciosa nisso tudo. Poucos meses antes, Charli havia declarado que estava cansada de fazer outro álbum orientado para a pista. Em entrevista à British Vogue, chegou a dizer:
“Acho que a pista de dança está morta, então agora estamos fazendo rock.”
Madonna respondeu à sua maneira: voltou para a Danceteria, chamou Charli e agora as duas estão preparando Afterhours.
OUTRA GERAÇÃO, OUTRA PORTA DE ENTRADA

Enquanto isso, outro artista de uma geração posterior acaba de encontrar Madonna dentro de uma música.
Troye Sivan lançou em 17 de setembro Party, segundo single de She’s the Best, álbum previsto para 9 de outubro. A faixa incorpora um sample de Music, de 2000, e recupera justamente uma das ideias centrais daquela música:
“A música faz as pessoas se unirem.”
Madonna e Mirwais aparecem nos créditos da nova composição.
Troye explicou que queria reproduzir uma sensação muito específica:
“A música dance soa muito diferente na pista de dança do que saindo pelo alto-falante do seu laptop. A repetição se torna quase hipnótica.”
A inspiração veio também das bush doofs, festas e raves que ele frequentava na Austrália, e da sensação de uma noite que passa de um lugar para outro sem um começo ou fim muito definido.
O detalhe que torna essa história especialmente interessante para quem acompanhou Madonna desde os anos 1980 ou 1990 é simples: quando Music foi lançada, Troye tinha cinco anos.
Hoje, ele pega aquela música, incorpora seu DNA a uma produção de 2026 e a apresenta para uma geração que conhece Madonna tanto como artista quanto como parte da própria história do pop.
O videoclipe de Party leva essa conversa ainda mais longe. Troye aparece como um cavaleiro medieval em uma festa de excesso, desejo e celebração, enquanto a narração é feita por Sir Ian McKellen. Os dois já haviam trabalhado juntos quando Troye tinha 14 anos, em Waiting for Godot. A própria equipe do artista descreve o encontro entre os dois como uma conexão entre gerações e parte de uma “linhagem queer” que atravessa diferentes épocas.
E talvez seja justamente aí que essas duas notícias aparentemente diferentes se encontram.
Madonna surgiu em uma Nova York em que clubes como a Danceteria eram laboratórios culturais.
Charli XCX cresceu quando a internet começou a desmontar as fronteiras entre underground e mainstream. Troye Sivan pertence a uma geração que descobriu música, identidade e comunidade em um ambiente completamente digital. São três momentos diferentes da cultura pop, mas existe uma linha que atravessa todos eles: a música como espaço de encontro.
Madonna parece saber disso melhor do que ninguém. Em Music, há 26 anos, ela cantava que:
“A música faz as pessoas se unirem.”
Agora, em 2026, Troye transforma a frase em matéria-prima para uma música nova, enquanto Charli entra em Danceteria para visitar uma história que começou muito antes de sua própria carreira.
Talvez por isso a frase publicada por Madonna seja tão boa:
“Vamos levar isso para o East Side, baby…”
É quase um endereço, mas também é uma espécie de convite. Voltar ao East Side, revisitar a Danceteria, abrir espaço para Charli, deixar Troye samplear Music e observar uma nova geração descobrir aquilo que Madonna ajudou a construir.
A pista muda de endereço, de tecnologia e de geração.
A música continua encontrando gente.
Assista à contagiante Party, segundo single de She’s the Best, e divida com a gente aqui na redação a sensação de que Madonna, anfitriã da própria história, é a grande hostess dessa festa, aquela que continua na porta e libera a entrada, como há tantos anos aconteceu na Danceteria.¿Entiendes?
Redação: Sergio Paiva/Equipe Madonna Literal
Uma nota (ou desabafo) de quem ainda está processando tudo isso.
Existe uma pequena dificuldade geracional no meio dessa história. Para quem cresceu acompanhando Madonna, é curioso perceber que Charli XCX e Troye Sivan já construíram carreiras inteiras em um mundo no qual Madonna era, desde o começo, uma referência.
Eles têm discos, hits, colaborações e uma linguagem própria que ainda estamos aprendendo a acompanhar.
E talvez essa seja uma das partes mais interessantes de acompanhar Madonna hoje. Não basta conhecer seu catálogo. É preciso também entender quem está chegando, de onde essas pessoas vieram e por que continuam encontrando Madonna pelo caminho.
É um pequeno exercício de atualização para uma "galerinha old school" como para esse que vos escreve.
E talvez seja justamente isso que mantenha a história interessante: reconhecer quem abriu a pista e, ao mesmo tempo, descobrir quem está chegando para dançar com ela.




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