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MADONNA EM ENTREVISTA PARA GRAHAM NORTON

14 de set.
11 min de leitura

26 de junho de 2026 — Koko, Londres


Em conversa com Graham Norton, Madonna fala sobre a origem de sua relação com a música dance, o processo de criação de Confessions 2, a liberdade da pista de dança e as lembranças dos primeiros anos em Nova York.


MADONNA EM ENTREVISTA PARA GRAHAM NORTON
“Eu não tenho expectativas. Faço isso há muito tempo. Então, espero o melhor e me preparo para o pior.”

De volta ao local onde lançou Confessions on a Dance Floor, em 2005, Madonna conversou com Graham Norton sobre o álbum que está prestes a lançar, sua relação histórica com a música dance e algumas das experiências que ajudaram a formar sua identidade artística.


Quando Norton pergunta por que ela continua retornando à música dance, a resposta é direta:


Foi assim que comecei. Eu era dançarina, então dançar está no meu DNA. E a primeira música que fiz foi música dance.”

Para Madonna, a pista de dança sempre esteve relacionada também à ideia de comunidade. Ela explica que dançar com outras pessoas, seja no palco ou em uma pista de dança, cria uma conexão que vai além da própria música.


Essa relação começou ainda em Michigan. Madonna conta que seu professor de balé a levou a um clube em Detroit chamado Menjo's. Ao entrar no local, ela se deparou com um ambiente completamente diferente daquele que conhecia.


“Todo mundo era tão livre. Meninas dançavam com meninas, meninos dançavam com meninos e algumas pessoas simplesmente circulavam sozinhas. Eu pensei: ‘Uau, isso é incrível. Todo mundo é tão livre.’”

A experiência ajuda a explicar por que a ideia de liberdade continua tão presente em seu trabalho. Ao falar sobre a nova música I Feel So Free, Madonna relaciona diretamente essa sensação às experiências que teve nas pistas de dança.


“Sinto uma tremenda sensação de liberdade quando estou dançando.”

DE HUNG UP A CONFESSIONS 2


Graham Norton também relembra o impacto de Hung Up, primeiro grande sucesso de Confessions on a Dance Floor. Madonna admite que o resultado superou suas expectativas.

“Eu não tenho expectativas. Faço isso há muito tempo. Então, espero o melhor e me preparo para o pior.”

Ainda assim, o sucesso de Hung Up a surpreendeu.


“Foi um enorme sucesso. Isso definitivamente me pegou de surpresa.”

Vinte anos depois, Madonna voltou a trabalhar com Stuart Price, responsável pela produção de Confessions on a Dance Floor. A colaboração para Confessions 2 começou durante a Celebration Tour, quando os dois precisaram trabalhar juntos novamente para reinventar as músicas do repertório.


Segundo Madonna, o trabalho evoluiu naturalmente depois da turnê. Durante aquele período, Price enviava ideias e sons para ela, até que os dois retomaram o processo de criação em estúdio.


“Quando você está em uma turnê, sua mentalidade é entreter e se conectar com o público, mas também se entreter.”

Depois do fim da turnê, os dois passaram cerca de um ano trabalhando no estúdio de Price, em Londres. O resultado, segundo a entrevista, chegou a 16 músicas para o novo projeto.

Price explica que Madonna sempre chega ao estúdio com histórias e ideias. Para ele, não seria possível simplesmente produzir música dance sem conteúdo.


“Ela é uma grande contadora de histórias. É muito poética na maneira como escreve. O estúdio se torna um espaço para contar histórias. Eu não consigo simplesmente fazer música dance sobre nada.”

Madonna acrescenta que grande parte do processo acontece justamente nas conversas entre os dois.


“Nós adoramos conversar. Sobre tudo: sobre o declínio da civilização, sobre criação dos filhos, sobre moda.”

“FOI COMO ENCONTRAR O CAMINHO”


Entre as primeiras músicas trabalhadas para o álbum está I Feel So Free. Graham pergunta se encontrar aquela música deu aos dois a sensação de que finalmente haviam descoberto a direção do disco.


Madonna confirma:


“Mesmo antes disso, estávamos mexendo em outras músicas. Eu pensava: ‘Esse não é exatamente o caminho que queremos seguir’. E então fizemos essa música e foi como: ‘Ok, agora estamos no caminho certo’.”

Outra faixa mencionada na conversa é One Step Away. A música nasceu de maneira particularmente espontânea. Madonna estava dançando enquanto a faixa tocava no estúdio quando decidiu ligar o microfone.


“Aquele vocal inteiro saiu em um fluxo de consciência, com letra e melodia. Tudo aconteceu em um momento.”

Ela descreve o processo de criação como algo que acontece justamente quando deixa de tentar controlar demais o resultado.


“As ideias vêm quando eu não tento me esforçar demais. Simplesmente aconteceu.”

A música também apresenta uma ideia central para o projeto: a pista de dança como espaço de transformação.


“As pessoas acham que música dance é superficial, mas estão completamente erradas. A pista de dança não é apenas um lugar. É um limiar. Um espaço ritualístico onde o movimento substitui a linguagem.”

UMA EXPERIÊNCIA CONTÍNUA


Assim como aconteceu em Confessions on a Dance Floor, Confessions 2 foi pensado para funcionar como uma experiência contínua, com as faixas conectadas umas às outras. Madonna explica que a ideia vem diretamente da experiência de uma pista de dança, onde um DJ mistura uma música à seguinte sem interromper o fluxo.


“É isso que acontece quando você vai a um clube e o DJ mistura uma música na outra. Não existe interrupção. Existe apenas fluxo.”

Essa concepção também está ligada às próprias origens de Madonna. Ao falar sobre a Danceteria, em Nova York, ela descreve o clube como um ponto de encontro entre diferentes formas de arte.


“Era essa incrível convergência de músicos, pintores, escritores e diretores.”

Para Madonna, aquela época dificilmente poderia ser reproduzida hoje.


“Nunca haverá outro momento como aquele.”

Ela explica que, naquele período, a necessidade de sair de casa e encontrar as pessoas pessoalmente fazia parte da experiência. Era preciso telefonar de telefones públicos, pegar o metrô e enfrentar filas para entrar nos clubes.


“Isso é um ritual. E isso é importante porque cria comunidade e conexão.”

Madonna também lembra que, apesar da imagem que viria a construir posteriormente, ela não se considerava uma pessoa particularmente integrada àquele ambiente.


“Todo mundo era legal. Eu não era legal.”

Suas primeiras roupas para sair eram, em grande parte, peças que já possuía como bailarina.


“Eu simplesmente peguei todas as minhas roupas de dança e as reinventei.”

E, naquele momento, Madonna não pensava em construir uma carreira internacional. Seu objetivo era muito mais simples.


“Eu só queria que uma música tocasse no rádio. Era isso. Eu pensava: ‘Vou saber que consegui quando isso acontecer’. E, se uma música tocasse no rádio, significava que eu poderia pagar meu aluguel.”

Quando Everybody finalmente chegou à pista de dança, ela teve uma das primeiras experiências concretas de que sua música poderia ocupar aquele espaço.


“Quando Mark Kamins tocou ‘Everybody’, eu fui para a pista de dança para dançar minha música em um clube pela primeira vez.”

Mais de quatro décadas depois, a relação continua praticamente intacta. Para Madonna, a pista de dança ainda representa aquele mesmo espaço de liberdade que descobriu quando era jovem.


“Quando começo a dançar, eu realmente não me importo com o que você pensa.”

E, quando Graham observa que ela parece estar completamente dentro do próprio corpo enquanto dança, Madonna corrige:


“Eu estou no meu corpo. Definitivamente não estou na minha cabeça. Esse é o pior lugar para estar.”

SABRINA, KYLIE E SURPRESAS PARA A NOVA ERA


A conversa ainda reserva espaço para Sabrina Carpenter, que participa de uma das faixas já apresentadas de Confessions 2. A colaboração começou de uma maneira bastante simples e muito Madonna: por uma mensagem direta no Instagram. Madonna conta que decidiu escrever para Sabrina, mesmo sem saber se receberia uma resposta.


“Eu mandei uma DM para ela. Disse: ‘Oi, é a Madonna. Estou fazendo um disco novo e adoraria colaborar com você em alguma coisa.’”

O resultado foi “Bring Your Love”, uma parceria que, segundo Madonna, funcionou perfeitamente. E a aproximação entre as duas acabou indo além do estúdio. Sabrina já estava escalada para se apresentar no Coachella e convidou Madonna para participar de seu show.


“Tudo aconteceu de uma maneira muito pura.”

Foi então que Graham Norton recuperou outro assunto que havia ficado no ar: o figurino histórico de Madonna que foi roubado durante o Coachella. Ela confirma que as peças ainda não foram devolvidas, mas mantém a esperança de que voltem para casa. O assunto, porém, logo dá lugar a uma das grandes surpresas da noite.

Quando Madonna pede uma bebida e Graham insiste que ainda não terminaram de conversar, a porta se abre para Kylie Minogue. O encontro transforma imediatamente a entrevista em uma reunião que os fãs certamente não esperavam ver daquela maneira. Norton aproveita o momento para perguntar diretamente sobre os rumores de que Kylie estaria em Confessions 2.


“Há todos esses rumores de que Kylie está em Confessions 2. É você confirmando esse rumor?”

Kylie desconversa, enquanto Madonna brinca com o mistério:


“Por que você precisa saber de tudo?”

A presença de Kylie, porém, já diz bastante. As duas haviam dividido o palco durante a Celebration Tour, em um dos momentos mais comentados daquela turnê, e a relação entre elas também passa por uma admiração que antecede a colaboração atual. Kylie conta que seu primeiro álbum fez parte da trilha sonora de sua adolescência e que ela e a irmã ouviam o disco repetidamente em casa.


“Minha irmã e eu ouvimos aquele álbum sem parar. O amor nasceu, e foi eterno.”

Madonna também relembra a origem da famosa camiseta de Kylie usada durante a era Celebration. Em seu “modo western”, ela estava customizando e aplicando pedrarias em tudo e decidiu homenagear algumas cantoras por quem tinha uma queda. Kylie foi uma escolha natural.


“Eu estava tentando pensar em cantoras por quem eu sou meio apaixonada. E, naturalmente, pensei na Kylie e mandei fazer uma camiseta com ela.”

Kylie admite que não recebeu nenhum aviso sobre a homenagem e revela que chegou a sentir um pouco de ciúme de Madonna. A razão é quase tão divertida quanto inesperada: na época, o então marido de Madonna tinha uma queda por Kylie, e Madonna brinca que pensava que nunca seria tão bonita quanto ela.


O encontro termina tão espontaneamente quanto começou, com Kylie deixando o bar para pegar o metrô enquanto Madonna e Graham continuam a conversa. Por trás da brincadeira, fica a sensação de que a aproximação entre duas artistas que ajudaram a definir diferentes momentos da música pop está finalmente ganhando um novo capítulo.


LONDRES, DE CIDADE CINZENTA A LUGAR DE CRIAÇÃO


De volta à conversa, Graham pergunta sobre a relação de Madonna com Londres. A resposta revela uma história muito anterior à atual fase de criação do álbum. Antes mesmo de fazer seus primeiros discos, Madonna já sonhava em conhecer a cidade. Ela e o amigo Martin trabalhavam em um bar chamado Lucky Strike e guardavam dinheiro para comprar uma passagem.


“Tínhamos ouvido que a moda era insana e queríamos ir ao World's End e ver a Vivienne Westwood e o Malcolm McLaren. Também ouvimos que a cena dos clubes era louca.”

A primeira experiência foi divertida, mas a relação com Londres mudou quando Madonna voltou para trabalhar na trilha sonora de Evita. Dessa vez, passou uma temporada mais longa na cidade e encontrou um lugar bem diferente daquele que havia imaginado.


“Era sempre cinza. Estava sempre chovendo. Eu não tinha amigos. Tudo fechava às seis. Nada estava aberto aos domingos. E a comida não era muito boa.”

O que mudou sua relação com a cidade foi a amizade com David Collins e Lorri O'Neal, que passaram a apresentá-la à vida cultural londrina.


“Eles me fizeram me apaixonar por Londres. Me levavam para sair o tempo todo, me apresentavam às pessoas, me levavam a galerias, museus e festas de coquetel. E eu pensei: ‘Ah, Londres é divertida.’”

Hoje, essa relação aparece também na maneira como Madonna circula pela cena artística britânica. Ela conta que descobriu Margate recentemente e visitou o estúdio de Tracey Emin. Para ela, a cidade litorânea tem algo que lembra Coney Island.


AS CANÇÕES MAIS PESSOAIS DE CONFESSIONS 2


A conversa então volta ao álbum e a uma característica que Graham considera especialmente interessante: embora Madonna seja conhecida por transformar sua vida em música há décadas, muitas vezes os fãs não percebem o quanto suas canções são pessoais.


Madonna reconhece que sempre falou sobre sentimentos, desejos e medos, mas admite que algumas das músicas de Confessions 2 são particularmente específicas. O último quarto do álbum, segundo ela, reúne algumas das faixas mais emocionais e pessoais do projeto.


“Muita coisa estava acontecendo na minha vida na época em que eu estava escrevendo com Stuart no começo. Fui profundamente afetada pela morte do meu irmão Christopher.”

Ela explica que uma das canções surgiu depois de uma conversa com ele, quando percebeu que ele estava sofrendo e que o fim estava próximo. Madonna saiu da conversa e foi escrever.


“Falei com meu irmão, que estava sentindo muita dor, pelo telefone. Ele não estava em um bom lugar e eu sabia que estava perto do fim. Então subi e escrevi uma música. Tudo estava conectado ao que estava acontecendo na minha vida.”

Para Madonna, transformar essa experiência em música teve um efeito quase terapêutico.


“É catártico. É como uma espécie de terapia, sabe? Para deixar alguém que você ama partir, a melhor maneira é escrever sobre isso. É como um exorcismo.”

Ela ainda conta que seu pai não ouviu a música, mas deverá ouvi-la em breve. A preocupação de Madonna é compreensível: ela não quer provocar nele uma dor ainda maior.


UMA PARCERIA DENTRO DA PRÓPRIA FAMÍLIA


Outro momento especialmente delicado surge quando Graham fala sobre a participação da filha de Madonna no álbum. Segundo ela, a aproximação partiu da própria filha, que durante muito tempo foi bastante reticente em trabalhar com a mãe.


Madonna explica que essa resistência tinha uma razão importante: ela não queria ser vista simplesmente como “a filha de Madonna”, alguém que estaria se beneficiando de um privilégio familiar.


Madonna faz questão de elogiar sua capacidade artística e sua voz.


“Ela é uma ótima compositora e tem uma voz muito, muito melhor do que a minha.”

A mudança aconteceu quando sua filha percebeu que ainda carregava sentimentos relacionados à própria experiência de crescer sob a sombra de uma mãe tão conhecida. Madonna conta que ela decidiu transformar isso em uma oportunidade de cura.


“Eu percebi que estava segurando alguma coisa. Talvez seja uma espécie de raiva... ou ressentimento.”

A proposta foi direta: as duas escreveriam uma música juntas, cada uma dizendo exatamente aquilo que precisava dizer.


“Vamos escrever uma música juntas. Acho que vai ser uma experiência muito, muito curativa. Você diz exatamente o que quer dizer e eu digo exatamente o que quero dizer.”

Madonna aceitou imediatamente.


“Eu fiquei tão feliz. ‘Ok, vamos fazer.’”

Quando Graham pergunta se as letras da filha a surpreenderam, Madonna responde simplesmente que não. Para ela, são bonitas. E quando ele observa que as duas vozes combinam muito bem, Madonna encontra uma explicação bastante simples.


“Somos do mesmo DNA.”


DEZESSEIS FAIXAS, OITO DE FORA, E O QUE VEM DEPOIS?


Mesmo com dezesseis músicas no álbum, Confessions 2 ainda poderia ter sido maior. Madonna revela que existem outras oito faixas que ela e Stuart Price adoram, mas que não entraram no disco.


“Temos oito músicas que amamos muito e que não entraram no disco. Você só consegue colocar tantas músicas em um álbum.”

As canções, no entanto, não parecem destinadas a desaparecer.


“Acho que elas vão encontrar o caminho delas até o mundo.”

Madonna explica que as dezesseis faixas escolhidas formam exatamente o álbum que ela queria. O disco tem cerca de uma hora e foi pensado inclusive a partir de uma pergunta muito simples: a música faz você querer se levantar e se mexer?


“É um ótimo disco para malhar. Isso me faz querer levantar e me mexer? Isso me impulsiona? Isso me inspira? Isso me dá um incentivo? Faz eu querer suar?”

Se a resposta fosse não, a música ficava de fora.


“Se não fizesse, eu tirava do disco.”

É também uma maneira bastante clara de explicar o que Madonna procura quando pensa em um álbum de música dance: não apenas canções para ouvir, mas um conjunto que provoque movimento.


E, quando Graham pergunta o que vem depois de Confessions 2, Madonna mantém novamente uma parte dos planos em segredo. Ela pretende continuar divulgando o álbum por algum tempo e, depois, fala em algo maior no verão.


“Acho que vou fazer divulgação por um tempo e depois, no verão, alguma coisa maior.”

Graham tenta descobrir se se trata de uma turnê e se acontecerá no Reino Unido. Madonna, naturalmente, não entrega.


“Pode ser.”

Quando ele insiste, ela devolve a provocação que já havia aparecido algumas vezes naquela noite:


“Por que você precisa saber de tudo?”

A resposta resume bem a postura de Madonna diante do próximo capítulo. Algumas coisas ela está disposta a contar. Outras, prefere que os fãs descubram no momento certo. Afinal, como ela mesma brinca ao ouvir que a definição de adulto seria a capacidade de adiar a gratificação:


“Eu não sou adulta. Nem um pouco.”

Talvez seja justamente isso que torne este novo capítulo tão interessante. Madonna não está tentando voltar ao passado mas voltando a uma linguagem que sempre fez parte de quem ela é. A mesma artista que um dia entrou em um clube em Detroit e descobriu um espaço onde “todo mundo era tão livre” agora retorna à pista de dança aos 67 anos, com novas músicas, novas histórias e a mesma inquietação artística. Confessions 2 parece nascer desse reencontro: não com a Madonna de 2005, mas com a mulher que continua encontrando na música dance uma maneira de se reinventar.


Redação: Sergio Paiva/Equipe Madonna Literal






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