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MADONNA & FRIDA KAHLO

16 de set.
9 min de leitura

Atualizado: 16 de set.

MADONNA & FRIDA KAHLO
Vanity Fair - Fevereiro de 2023

Recentemente, Madonna postou uma fotografia que, à primeira vista, parece apenas mais uma homenagem a Frida Kahlo, mas que esconde uma pequena cadeia de referências:


A imagem é Being Frida, London, 2000, de Mary McCartney, na qual a artista Tracey Emin aparece caracterizada como Frida, e a legenda de Madonna dizia: “Pensando em Tracey, que está pensando em Frida.”  A frase é quase uma chave para entendermos uma relação que atravessa gerações: Frida transformou o próprio corpo, sua dor, sua identidade e sua imagem em arte; décadas depois, Tracey Emin faria algo semelhante ao transformar experiências íntimas em matéria artística; e Madonna, que há muito tempo reconhece em Frida uma espécie de musa e antecessora, parece se colocar agora nessa mesma corrente de mulheres que olham umas para as outras e encontram novas formas de se reinventar. Não por acaso, Madonna colecionou obras de Frida, falou publicamente de sua obsessão pela artista, levou referências suas para a própria obra e, em 2024, chegou a visitar a casa da família Kahlo no México. Agora, ao compartilhar a fotografia de Tracey, ela nos oferece uma nova perspectiva sobre essa admiração: talvez, para entender por que Frida continua sendo tão importante para Madonna, também seja preciso olhar para quem olha para Frida. 


Então, por alguns minutos, vale a pena fazer o mesmo: pensar em Madonna pensando em Tracey e, através dela, pensar em Frida. "Traveling, traveling".


Madonna e Frida: Uma relação que vem de longe


A imagem recente nos leva, naturalmente, de Tracey Emin de volta a Frida, mas a relação de Madonna com a artista mexicana começou muito antes dessa fotografia. Madonna já falou diversas vezes sobre seu fascínio por Frida, lembrando que seu interesse por arte nasceu ainda na infância e que foi ao conhecer Diego Rivera que chegou à obra de Kahlo. Em uma entrevista de 1999, ela foi direta ao definir esse vínculo:


“Sempre fui meio obcecada por Frida Kahlo.” 

A história dessa relação começa muito antes da Madonna milionária e colecionadora. Ainda jovem, ao visitar o Detroit Institute of Arts, ela se deparou com a obra de Diego Rivera e, a partir dali, descobriu Frida Kahlo. Anos depois, Madonna lembraria daquele momento como uma espécie de porta de entrada para o universo da artista mexicana. Foi assim que Rivera, então o nome mais conhecido dos dois, acabou conduzindo Madonna até Frida, que se tornaria a figura que realmente permaneceria em seu imaginário.


Antes de poder comprar os quadros que admirava, Madonna já carregava Frida consigo de uma maneira muito mais simples. Durante seus primeiros anos em Nova York, quando ainda era uma jovem dançarina com pouco dinheiro, ela mantinha uma imagem de Frida na parede e encontrava naquela mulher uma espécie de inspiração pessoal. A ideia de um dia possuir uma obra original de Kahlo veio justamente desse período, quando Frida ainda era uma presença distante, quase um sonho de consumo. Décadas depois, Madonna transformaria aquela admiração em uma das coleções privadas mais conhecidas de obras da artista.



Não era apenas uma admiração distante. Madonna incorporou Frida à sua própria coleção de arte e, ao longo dos anos, transformou essa referência em algo muito mais pessoal. Uma das obras mais conhecidas de sua coleção é My Birth, de 1932, pintura diante da qual Madonna chegou a declarar que, se alguém não gostasse dela, provavelmente não poderia ser seu amigo. A escolha diz bastante sobre o tipo de artista que a interessa: uma mulher que não separava criação, identidade, corpo e experiência pessoal.



Curiosidade:


Madonna comprou a obra em 1987, quando ela ainda pertencia a Edgar Kaufmann Jr., que costumava mantê-la escondida dentro de um armário e mostrá-la apenas a alguns convidados. O quadro, que hoje é imediatamente reconhecido como uma das imagens mais emblemáticas de Frida, chegou assim à coleção de Madonna justamente por meio de uma história quase cinematográfica: uma pintura considerada íntima e desconcertante, guardada longe dos olhos, acabou encontrando uma proprietária que não apenas a queria, mas faria questão de deixá-la à vista.




Assista a partir do minuto 7:00, Madonna abrindo as portas de dua casa pra Vogue e contando como foi o episódio em que descobriu essa relíquia dentro de um armário e falando sobre a obra que Frida não conseguiu finalizar.




Sendo assim não pode ser coincidência o fato de que a capa de Confessions 2 dialogue tão diretamente com My Birth, de Frida Kahlo. Na pintura, Frida transforma o próprio nascimento em uma cena visceral, íntima e desconfortável, colocando o corpo feminino e a experiência de nascer no centro da obra. Madonna faz um movimento semelhante: o corpo, a sexualidade, o nascimento simbólico e a reinvenção aparecem novamente como matéria artística. É como se, décadas depois, Madonna retomasse uma imagem que sempre a fascinou para falar, à sua maneira, sobre mais um nascimento: o de uma nova versão de si mesma.



O encontro mais íntimo



Talvez por isso a passagem de Madonna pelo México, em 2024, tenha adquirido um significado tão especial. Durante a Celebration Tour, ela fez uma visita privada à casa da família Kahlo, em El Pedregal, e não à Casa Azul, como chegou a ser divulgado inicialmente. Ali, segundo a própria Madonna, ela teve contato com objetos e registros pessoais relacionados a Frida e descreveu a experiência como algo mágico. A instituição Casa Azul posteriormente esclareceu que Madonna não visitou o museu nem utilizou peças de seu acervo, mas a visita à antiga casa da família aconteceu e reforçou uma relação que, para Madonna, parece estar muito além da simples admiração por uma artista famosa.


“Um belo souvenir — visitando a casa da família da minha Musa Eterna, Frida Kahlo, na Cidade do México. Para mim, foi mágico experimentar suas roupas e joias, ler seus diários e cartas e ver fotos que nunca havia visto antes.” 

Há algo especialmente bonito nessa sequência. Madonna começou olhando para as pinturas de Frida, depois passou a colecioná-las, levou suas referências para o próprio universo artístico e, décadas depois, literalmente entrou na casa onde aquela mulher viveu. Agora, ao compartilhar a imagem de Tracey Emin caracterizada como Frida, ela acrescenta uma nova camada a essa história. Frida inspirou Madonna, Madonna reconhece Tracey olhando para Frida, e nós somos convidados a olhar para as três. Não se trata de dizer que elas são iguais, mas de perceber uma mesma ideia atravessando épocas e linguagens: a possibilidade de transformar o próprio corpo, a própria imagem, as próprias experiências e até as próprias contradições em matéria de criação.


E talvez seja justamente aí que esteja a chave para entender por que Frida continua sendo tão importante para Madonna. Não apenas porque Frida se tornou um ícone, mas porque, muito antes de existir a cultura da imagem que hoje conhecemos tão bem, ela já havia entendido que a maneira como uma mulher escolhe ser vista também pode ser uma forma de autoria. Madonna reconheceu isso muito cedo. Tracey Emin também. E aquela fotografia recente, quase como uma pequena cadeia de olhares, nos devolve à origem de tudo: Frida olhando para nós, nós olhando para Frida e Madonna, mais uma vez, nos convidando a contemplar:



O corpo como obra


Frida transformou o próprio corpo em tema. Seus autorretratos não eram simplesmente retratos: eram maneiras de investigar identidade, dor, sexualidade, nacionalidade e pertencimento.


Madonna fez algo parecido através da fotografia, do figurino, dos videoclipes e do palco. Seu corpo também se tornou linguagem, e cada transformação visual podia representar uma nova fase de sua carreira.


Talvez seja essa uma das razões pelas quais Frida tenha exercido tanta atração sobre ela. Madonna percebeu muito cedo que a imagem de uma mulher também pode ser uma obra de arte.


Em 1999, ao falar sobre suas referências, Madonna lembrou que artistas como Frida Kahlo haviam usado a própria aparência para desafiar as expectativas sobre feminilidade.


“Artistas, ao longo dos séculos, sempre se envolveram com a criação de personagens.”

Madonna citou Frida como exemplo de uma mulher que podia transitar entre diferentes maneiras de se apresentar.


Dor, identidade e criação


Existe ainda uma aproximação mais profunda.


Frida transformou suas experiências físicas e emocionais em pintura. Seu acidente, suas cirurgias, seus abortos, seus relacionamentos, sua relação com Diego Rivera e sua própria identidade mexicana atravessaram sua obra.


Madonna também sempre transformou a própria experiência em criação. Sexo, maternidade, religião, amor, envelhecimento, violência, desejo e liberdade aparecem repetidamente em sua produção.


Não significa que as duas tenham vivido as mesmas coisas. Significa que ambas compreenderam uma coisa fundamental: a experiência pessoal pode deixar de ser apenas experiência e se transformar em linguagem artística.


É revelador que, na mesma entrevista de 1999, Madonna tenha resumido seu interesse pela arte em duas palavras:


“Sofrimento e ironia.”

É difícil imaginar uma combinação mais adequada para explicar por que Frida a fascinava.


Frida também sabia criar uma personagem


Existe outra aproximação especialmente interessante. Frida não apenas pintava a si mesma. Ela construiu uma imagem de Frida Kahlo.


As roupas tradicionais mexicanas, as flores, os cabelos, as joias e as sobrancelhas se tornaram parte de uma identidade visual reconhecível em todo o mundo.


Madonna faria da reinvenção de sua própria imagem uma das marcas mais importantes da cultura pop.


A diferença é que Frida fazia isso principalmente através do autorretrato, enquanto Madonna faria através da fotografia, da música, do cinema, da moda e da performance. Mas a pergunta por trás das duas é parecida: quem eu quero ser quando me apresento ao mundo?


Talvez seja por isso que a imagem de Frida tenha envelhecido tão bem. Ela compreendeu, décadas antes da cultura pop transformar isso em indústria, que uma mulher poderia controlar a própria imagem e fazer dela parte essencial de sua obra.



Da pintura para a cultura pop


Madonna também enxergou algo que talvez seja ainda mais importante: Frida não precisava permanecer confinada ao museu.


Em 1999, Madonna explicou sua própria relação com a arte dizendo que gostava de trazer referências artísticas para a cultura popular.


“Trazer isso para a cultura pop.”

E, ao falar de Bedtime Story, reconheceu entre as referências às pintoras surrealistas:


“Um pouquinho de Frida Kahlo.”

Essa atitude ajuda a entender a própria carreira de Madonna. Ela frequentemente retirou imagens, ideias e referências de lugares considerados distantes da música pop e colocou tudo diante de um público enorme.


Frida foi uma dessas referências.


Duas mulheres diante do espelho


Talvez seja esse o ponto em que a ligação entre as duas fique mais clara.


Frida pintava a mulher que via no espelho enquanto Madonna construiu diferentes mulheres diante das câmeras.


Frida transformou seu rosto, seu corpo e sua história em pintura. Madonna transformou os seus em fotografia, música e performance.


As duas entenderam que identidade não é necessariamente uma coisa imóvel. Pode ser investigada, questionada, reconstruída e até reinventada.


E talvez Madonna tenha reconhecido em Frida algo que poucos artistas poderiam oferecer a ela: uma mulher que, décadas antes, já havia entendido que ser vista também pode ser uma forma de criação.


Uma musa eterna


A admiração de Madonna por Frida atravessou décadas. Em 2001, ela chegou a emprestar seu Self-Portrait with Monkey, de 1940, para uma exposição da Tate Modern dedicada a Frida.

Curiosidade: um macaco que voltou para Madonna


Self-Portrait with Monkey, de 1940 ganhou ainda mais visibilidade quando Madonna a emprestou à Tate Modern, em Londres, para uma exposição realizada em 2001. O gesto chamou atenção porque não se tratava apenas de uma obra de uma artista admirada: Madonna estava permitindo que uma pintura de sua coleção particular voltasse ao circuito público e fosse vista ao lado de outras grandes obras de arte.


Mais recentemente, Madonna voltou a se referir a Frida como sua:


“Musa eterna.”

Mostrando que aquela relação está longe de ser apenas uma lembrança dos anos 1980 ou 1990.


Frida morreu em 1954. Madonna nasceu em 1958. Ainda assim, de alguma maneira, suas obras continuam conversando.


Uma pintava autorretratos. A outra construiu uma carreira inteira de reinvenções.


Uma transformou a dor em imagem. A outra transformou a experiência em espetáculo.


E talvez seja justamente por isso que Madonna nunca tenha olhado para Frida apenas como uma grande pintora mexicana. Ela parece enxergar nela algo mais íntimo: uma mulher que descobriu que a própria vida poderia ser matéria de arte.


E, nesse sentido, Frida talvez não seja apenas uma das musas de Madonna.


Talvez seja uma de suas antecessoras.



E a referência a Frida parece reaparecer até mesmo quando Madonna celebra a própria vida. Em agosto de 2026, ao completar 68 anos, ela escolheu para sua festa em Corfu, na Grécia, um exuberante vestido da Dolce & Gabbana Alta Moda, coberto por flores tridimensionais, bordados e lantejoulas, acompanhado de um grande arranjo floral na cabeça criado por Julia Clancey. O conjunto não foi oficialmente apresentado como uma homenagem a Frida, mas a imagem é inevitável: flores, ornamentos, silhueta e teatralidade aproximam novamente Madonna daquela linguagem visual que ela há décadas associa à sua “Musa Eterna”.





Diego Rivera - Pintor e muralista mexicano (1886–1957), um dos grandes nomes do muralismo mexicano. Foi marido de Frida Kahlo e uma das figuras que a aproximaram do universo artístico.
Diego Rivera - Pintor e muralista mexicano (1886–1957), um dos grandes nomes do muralismo mexicano. Foi marido de Frida Kahlo e uma das figuras que a aproximaram do universo artístico.
Tracey Emin - Artista britânica, nascida em 1963, conhecida por transformar experiências íntimas, memórias, relacionamentos e vulnerabilidades em arte.
Tracey Emin - Artista britânica, nascida em 1963, conhecida por transformar experiências íntimas, memórias, relacionamentos e vulnerabilidades em arte.

Frida virou uma espécie de vocabulário visual dentro da obra de Madonna. 


Às vezes aparece diretamente, às vezes é apenas uma referência, às vezes é uma atmosfera, mas volta sempre à mesma ideia: o rosto, o corpo, a roupa, a dor e a própria imagem como instrumentos de criação e reinvenção.





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