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Madonna no VMA: sete performances que fizeram história

há 5 dias
6 min de leitura
Madonna no VMA: sete performances que fizeram história
De “Like a Virgin” a “Hollywood”, uma viagem pelas sete vezes em que Madonna transformou o palco do Video Music Awards em território próprio.

A história da música pop e a trajetória do MTV Video Music Awards fundem-se em uma única narrativa visual a partir do momento em que Madonna pisou pela primeira vez naquele palco. Ao longo de mais de quatro décadas, a premiação deixou de ser apenas uma entrega de troféus para se transformar no grande anfiteatro da cultura jovem, em grande parte porque a artista compreendeu o poder da imagem televisiva antes de qualquer outro superstar. Cada uma de suas aparições funcionou como um divisor de águas, moldando a estética, o comportamento e a própria linguagem do audiovisual global, tornando a cerimônia o cenário ideal para suas provocações mais ambiciosas e calculadas.


1984 · Like a Virgin



Tudo começou em cima de um bolo de casamento de aproximadamente cinco metros de altura. Na primeira edição do MTV Video Music Awards, Madonna apareceu vestida de noiva, coberta de pérolas, renda, rosários e usando o célebre cinto “Boy Toy”. Cantava “Like a Virgin” quando um dos sapatos escapou. Ao tentar recuperá-lo, caiu no palco, rolou pelo chão e acabou deixando a lingerie à mostra. O detalhe que entrou para a história nasceu de um acidente. Madonna percebeu que a queda poderia destruir a apresentação ou transformá-la em alguma coisa maior. Escolheu a segunda opção. O GRAMMY descreve o momento como uma das primeiras grandes performances televisivas de Madonna e registra que seu empresário chegou a dizer, depois da apresentação, que sua carreira estava acabada. O efeito foi exatamente o contrário. Naquela edição, Madonna concorria a Melhor Novo Artista em um Vídeo, por “Borderline”. Não ganhou. A estatueta ficou com os Eurythmics. Ela ainda não tinha um VMA. Tinha acabado de criar o primeiro grande momento da história do prêmio.





1987 · Causing a Commotion



Em 1987, Madonna sequer estava em Los Angeles. Ela encerrava a etapa europeia da Who's That Girl World Tour, e a MTV exibiu uma gravação de “Causing a Commotion” feita em Turim, na Itália. É uma Madonna de estádio: guitarra, coreografia acelerada e uma energia mais roqueira do que a versão de estúdio. A performance levava para dentro do VMA um pedaço de uma turnê mundial, transformando a transmissão em extensão do espetáculo que acontecia longe dali. Curiosamente, aquela edição também marcou a primeira vitória competitiva de Madonna no VMA. “Papa Don't Preach” venceu Melhor Vídeo Feminino. O clipe ainda concorria em Cinematografia e Desempenho Geral. A Madonna que aparecia na tela já não era a estreante de três anos antes. Ela estava começando a descobrir que o palco do VMA poderia ser tão grande quanto qualquer estádio.




1989 · Express Yourself


Dois anos depois, Madonna voltou ao palco pessoalmente e abriu a cerimônia com “Express Yourself”. Vestida inicialmente com um terno masculino risca de giz, monóculo e chapéu, ela desceu uma escadaria antes de revelar o bustiê por baixo do paletó. Ao lado de Niki Haris e Donna De Lory, construiu uma apresentação vigorosa, teatral e deliberadamente provocadora. Havia ainda um detalhe que hoje parece premonitório: a coreografia incorporava movimentos de voguing antes mesmo de “Vogue” existir como fenômeno. Niki Haris apresentou alguns daqueles movimentos a Madonna durante os ensaios. “Express Yourself” recebeu cinco indicações e venceu três: Direção, Direção de Arte e Cinematografia. Madonna também saiu da noite com o prêmio de Escolha do Público por “Like a Prayer”, totalizando quatro troféus. Foi uma noite em que Madonna não apenas cantou. Ela parecia estar ensaiando a Madonna que ainda viria.




1990 · Vogue


Se “Like a Virgin” criou o mito, “Vogue” mostrou o domínio absoluto da linguagem do VMA. Madonna transformou o palco numa corte francesa. Perucas empoadas, leques, nobres, criados, vestidos e uma coreografia inspirada no universo de Maria Antonieta criaram uma espécie de fantasia do século XVIII. No centro de tudo, Madonna comandava a cena como uma aristocrata pop. A apresentação também levou o voguing para uma audiência televisiva gigantesca. A dança, desenvolvida na cultura ballroom negra e latina LGBTQIA+ de Nova York, deixava de ser uma linguagem de uma cena específica para ocupar o palco principal da MTV. “Vogue” chegou àquela noite como o vídeo mais indicado do ano, com nove indicações. Ganhou três: Direção, Edição e Cinematografia. Perdeu Vídeo do Ano para “Nothing Compares 2 U”, de Sinéad O'Connor. A ironia é deliciosa: Madonna perdeu o grande prêmio enquanto fazia uma das performances que mais definiriam o próprio VMA.




1993 · Bye Bye Baby




Em 1993, Madonna apareceu de fraque, cartola, luvas e bengala para abrir a cerimônia com “Bye Bye Baby”. O número era praticamente um ensaio para a The Girlie Show World Tour, que começaria poucas semanas depois. Cercada por três dançarinas, Madonna transformou o palco em um cabaré decadente, com referências a Marlene Dietrich e uma inversão deliberada dos papéis de gênero. O coreógrafo Alex Magno contou que chegou a considerar “Justify My Love” e “The Beast Within”, mas Madonna decidiu que as duas seriam controversas demais para a televisão ao vivo. “Bye Bye Baby” acabou escolhida. Na mesma noite, “Rain” levou dois prêmios, em Direção de Arte e Cinematografia. Era uma combinação curiosa: Madonna apresentava no palco uma persona teatral, masculina e provocadora enquanto, nos bastidores da mesma noite, era premiada pelo delicado e cinematográfico universo de “Rain”.





1998 · Shanti/Ashtangi + Ray of Light



Cinco anos depois, Madonna voltou completamente transformada. A apresentação começou com “Shanti/Ashtangi”. Vestida em referências visuais indianas, cercada por dançarinos e mergulhada numa atmosfera espiritual, Madonna parecia estar em outro universo. Então Lenny Kravitz entrou com a guitarra e “Ray of Light” explodiu no palco. A transição era quase cinematográfica: mantra, silêncio, eletricidade, guitarra e pista de dança. Madonna chegou àquela noite como a artista mais indicada, com nove indicações por “Ray of Light” e “Frozen”. Saiu como a maior vencedora, com seis troféus. “Ray of Light” venceu cinco, incluindo Vídeo do Ano e Melhor Vídeo Feminino; “Frozen” levou Melhores Efeitos Especiais. Foi também a primeira vez que Madonna ganhou Vídeo do Ano. A garota de 1984 havia levado o público ao chão. A mulher de 1998 agora levava o VMA do chão para a pista de dança.





2003 · Hollywood




E então veio 2003. Britney Spears e Christina Aguilera começaram a apresentação vestidas de noiva, recriando a imagem que Madonna havia criado em 1984. Quando Madonna surgiu, de preto, a brincadeira ficou completa: as duas jovens estrelas haviam entrado no universo da Madonna; Madonna entrava para assumir novamente o centro dele. “Like a Virgin” abriu espaço para “Hollywood”. Madonna beijou Britney e depois Christina, enquanto Missy Elliott entrou com “Work It”. A câmera captou a reação de Justin Timberlake e transformou aqueles poucos segundos em uma das imagens mais reproduzidas da televisão dos anos 2000. O número era, ao mesmo tempo, uma passagem de bastão e uma reafirmação de território. Naquela edição, Madonna concorria a Melhor Vídeo de Filme, por “Die Another Day”. O prêmio foi para Eminem por “Lose Yourself”. Ela não levou uma estatueta para casa. Levou a imagem que definiria aquela edição.





Sete apresentações, uma mesma assinatura


De 1984 a 2003, Madonna construiu no VMA uma espécie de autobiografia em sete atos. A noiva que caiu do bolo. A estrela de estádio transmitida da Itália. A mulher de terno e bustiê. A aristocrata de “Vogue”. O mestre de cerimônias de “Bye Bye Baby”. A artista espiritual e eletrônica de “Ray of Light”. E, finalmente, a madrinha pop que apareceu entre Britney, Christina e Missy para lembrar de onde aquela nova geração havia vindo. São performances muito diferentes entre si. O fio que as une é a capacidade de Madonna de tratar uma premiação como palco de criação, e não simplesmente como lugar para cantar uma música conhecida. Em 1984, ela descobriu o VMA. Em 1989, começou a dominá-lo. Em 1990, transformou-o em teatro. Em 1998, em pista de dança. Em 2003, transformou a própria história em coreografia. E talvez seja justamente por isso que, quando se fala nas grandes performances do VMA, Madonna continua aparecendo antes mesmo de a música começar.



E agora, depois de tantos anos, fica aquela sensação difícil de explicar de quem acompanha Madonna há tempo demais para simplesmente assistir a uma apresentação. Neste domingo, quando as luzes se apagarem e ela finalmente aparecer no palco do VMA, haverá certamente uma parte de mim tentando reconhecer a garota que surgiu sobre aquele bolo em 1984, a mulher que dançou “Vogue”, a artista que fez “Ray of Light” explodir em 1998 e tantas outras Madonnas que ficaram guardadas na memória. Pode ser uma grande produção, pode ser uma surpresa, pode ser algo que ninguém está esperando. Mas, para quem esperou tantos anos por esse reencontro, talvez os primeiros segundos sejam suficientes. Madonna estará novamente no palco do VMA. E, depois de tudo o que ela já fez ali, fica impossível não imaginar que ela ainda tenha uma última cena para nos mostrar.


Redação: Sergio Paiva/Equipe Madonna Literal





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