Miley entra na pista de Madonna e entende exatamente que horas são

Em “Bass Persuades”, referências a “Hung Up”, “Sorry” e “Girl Gone Wild” encontram Britney, Janet e o cinema de Liliana Cavani. A direção de Mert Alas transforma essa constelação em ponte. E o clipe acaba falando a mesma língua corporal de “Confessions II”.
O detalhe dura poucos segundos, mas é o bastante para acionar uma memória inteira: Miley atravessa a rua de jaqueta de couro, mãos nos bolsos, com aquele andar seco de quem não está apenas chegando a um lugar. Está tomando posse dele. O corpo reconhece antes mesmo de a cabeça organizar a referência. Há algo de Madonna no fim de “Hung Up”, algo da passagem direta para “Sorry”, naquela atitude segura e despreocupada que transforma calçada, fliperama, van ou pista em extensão da personagem.
Não é preciso congelar o vídeo à procura de uma cópia exata. A graça está justamente no contrário. Em “Bass Persuades”, Miley não veste uma fantasia de Madonna; ela trabalha com uma linguagem que Madonna ajudou a tornar universal. Couro, desejo, autoridade, masculinidade encenada, o clube como lugar de transformação e a dança que começa no indivíduo até tomar conta da rua. São códigos conhecidos, reorganizados por uma artista que sabe de onde eles vieram. E, principalmente, sabe quando usá-los.
Lançada em 3 de setembro, a faixa-título abre o caminho para o décimo álbum de Miley, previsto para 18 de setembro, e inaugura também a fase em que ela deixa o sobrenome fora da capa: agora é simplesmente MILEY. Musicalmente, a canção chega com sintetizadores sujos, batida oitentista e um spoken word que flerta com Blondie, pós-punk e a eletrônica noturna de Blackout. Mas seu assunto é muito 2026: uma geração hipnotizada por telas, distante da experiência física e coletiva da música.
“The kids don’t wanna dance”.
A saída proposta é direta: “go analog”. Se o argumento racional já não resolve, “the bass persuades”.
Dois meses antes, Madonna havia lançado Confessions II.
Coincidência de calendário? Pode ser. Coincidência de discurso? Aí já fica difícil ignorar.
Miley nunca escondeu de onde veio
Antes de qualquer leitura do novo clipe, vale lembrar que a relação de Miley com o repertório de Madonna não nasceu agora. E nunca foi disfarçada.
Em 2014, no auge de Bangerz, ela convidou a própria Madonna para o seu MTV Unplugged. As duas fizeram um mashup de “We Can’t Stop” com “Don’t Tell Me”, vestidas como cowgirls de um saloon pop imaginário. A escolha era mais inteligente do que parecia: “Don’t Tell Me” já misturava country, eletrônica e desafio à autoridade muito antes de Miley transformar esse cruzamento em parte central de sua identidade. Não era apenas a jovem estrela recebendo a bênção da Rainha do Pop. Era uma artista escolhendo, dentro de um catálogo gigantesco, a Madonna que melhor conversava com a própria história.
Depois vieram novas versões de “Like a Prayer”, levadas ao palco por Miley em 2021 e novamente em 2022, com uma interpretação vocal que não tentava reproduzir a original.

E, em 2025, ela apareceu usando um Jean Paul Gaultier vintage da coleção de 1990, numa homenagem tão clara à Blond Ambition Tour que o look dispensava legenda.
Miley, portanto, não descobriu Madonna no moodboard de “Bass Persuades”. Ela já cantou com ela, cantou suas músicas e levou sua imagem para o próprio guarda-roupa. A diferença agora é que a referência deixou de ser uma citação direta e passou a funcionar por dentro da obra.
Mert Alas não caiu ali por acaso
É aqui que a escolha do diretor ganha outro peso. Mert Alas não é apenas “alguém próximo de Madonna” no sentido vago que a indústria costuma dar à palavra amizade.
Existe uma relação artística longa, repetida e documentada. A proximidade pessoal também ficou visível com o passar dos anos.
Ao lado de Marcus Piggott, formando a dupla Mert & Marcus, ele fotografou Madonna para a Interview em 2010 e novamente em 2014.
Em 2012, os dois dirigiram “Girl Gone Wild” e assinaram imagens do universo de MDNA, incluindo o tourbook da turnê.
Depois vieram a campanha da Versace em 2015, o ensaio doméstico e cinematográfico para a Vogue Italia em 2018 e a capa da British Vogue em 2019.
A ligação não ficou restrita aos sets. Em 2025, Madonna chegou perto da meia-noite à festa
de Valentine’s Day de Mert em Nova York.
Os dois celebraram o reencontro e passaram parte da noite conversando ao pé do ouvido.
Já em fevereiro de 2026, poucos meses antes
de “Bass Persuades”, Mert foi o diretor e líder criativo da nova campanha de The One, da Dolce & Gabbana, estrelada por Madonna e Alberto Guerra e inspirada no cinema italiano
dos anos 1970.
Quando Mert enquadra Miley de lingerie, couro, boné militar e luvas, ele não está observando o imaginário de Madonna à distância. Ele conhece essa construção por dentro e ajudou a criar capítulos dela. Sua ponte mais direta aqui não é “Hung Up”, dirigido por Johan Renck, nem “Sorry”,
dirigido por Jamie King. É “Girl Gone Wild”.
Também não foi Mert quem dirigiu o filme de Confessions II, trabalho da dupla TORSO, formada por David Toro e Solomon Chase. Mert não é o autor de todas as imagens evocadas pelo novo vídeo. Melhor assim. Sua presença funciona como uma ligação viva com essa linguagem, alguém que sabe fazê-la reaparecer sem transformar tudo numa cópia.
Da rua de “Hung Up” ao clube de “Girl Gone Wild”
“Bass Persuades” começa com uma carta da Rainha de Copas lançada à mesa por uma mão de luva preta. Depois surge Miley, sozinha numa rua escura, de boné de couro com desenho militar. A combinação de lingerie, uniforme, poder e tensão erótica remete imediatamente a O Porteiro da Noite, filme de Liliana Cavani de 1974.

E esse dado é importante: nem tudo começa em Madonna. O que Madonna fez, repetidas vezes, foi olhar para o cinema, a moda e as subculturas e devolver tudo ao grande público com outra força. Miley e Mert entram nessa mesma linha, não do nada.
Quando Miley segue pela rua com as mãos enterradas na jaqueta, “Hung Up” e “Sorry” voltam no jeito de andar. No trecho final de “Hung Up”, Madonna troca o collant pela jaqueta de couro preta e leva a coreografia para o fliperama; “Sorry” começa exatamente de onde o vídeo anterior parou, com figurino, cabelo e atitude preservados, antes de colocar aquela turma em movimento pela cidade.
Miley resume esse caminho: rua, entrada, pista, grupo e, no final, rua outra vez. Não é um easter egg com carimbo oficial. É uma memória de movimento.
Ao entrar no clube, o cenário de cabaré, os homens dispostos ao redor e as cadeiras fazem “Open Your Heart” piscar no fundo da retina. A mulher não chega ali para ser observada passivamente: ela controla o olhar, conduz o desejo e estabelece as regras.
O boné preto, a alfaiataria larga e os corredores noturnos também aproximam o vídeo de “Me Against the Music”, justamente o encontro de Britney Spears com Madonna. É como se uma mesma peça de roupa atravessasse diferentes gerações, carregando consigo uma ideia de comando.
Então o clipe chega à sua ligação mais evidente. Miley se cerca de dançarinos sem camisa, couro e corpos masculinos transformados em imagens homoeróticas. Aqui, “Girl Gone Wild” deixa de ser apenas uma suspeita e vira referência clara: a estrela loira no centro, as formações atléticas, a fotografia de moda, a tensão entre disciplina religiosa e prazer, tudo passa pelo olhar do mesmo Mert Alas.
E “Girl Gone Wild”, por sua vez, já era uma cápsula da própria história de Madonna. Ecos de “Erotica”, “Justify My Love”, “Human Nature” e “Vogue” conviviam naquele preto e branco de 2012.
É por isso que “Bass Persuades” parece conter tantas Madonnas ao mesmo tempo. O gesto sexual e a ambiguidade dos corpos lembram “Justify My Love”; o couro como armadura devolve “Human Nature”; o grupo posado como escultura de moda leva a “Vogue”; a mulher comandando uma sala masculina chama “Open Your Heart”; e a passagem do passo individual à coreografia coletiva nos joga de volta em Confessions on a Dance Floor.
Britney, Janet e uma pista que guarda memória
Madonna é o fio condutor, mas não a única presença. O baixo pesado e o espaço noturno de pouca luz puxam “Gimme More” e o clima de Blackout, de Britney. O poste ao fundo reforça a associação; Miley rastejando sobre a mesa lembra “Slumber Party”; e “Me Against the Music” funciona quase como a ponte perfeita entre os dois universos.
Na precisão das formações coletivas há a escola de Janet Jackson, especialmente aqui ela tradição em que a coreografia não enfeita a canção, mas cria uma comunidade temporária ao redor dela. Quando a dança finalmente escapa do clube e ocupa a rua, Michael Jackson e o final de “Thriller” surgem como uma referência inevitável.
Isso não diminui Miley. Mostra uma artista confiante o suficiente para admitir que o pop tem memória. Referência não é uma planilha de dívidas. O valor está na montagem: quais imagens são chamadas, como são reorganizadas e por que voltam agora.
“Bass Persuades” atravessa Cavani, Madonna, Janet, Michael e Britney para chegar a um problema atual: como fazer o corpo reaparecer numa cultura que transformou até a dança em conteúdo para uma tela vertical?
O baixo convence, e “Confessions II” já havia dado o recado
A semelhança mais forte entre Miley e Madonna não está, afinal, numa jaqueta. Está na ideia. Em Confessions II, Madonna voltou à pista não para repetir 2005, mas para perguntar o que aquele espaço ainda pode significar. No manifesto que acompanhou o anúncio do álbum, ela definiu a dança como prática espiritual e coletiva: o som e a vibração mudam a percepção, fazem o ego e o tempo desaparecerem; na pista, “movement replaces language”. A ideia não é ouvir o baixo como informação, mas senti-lo como força física.
É exatamente aí que o título “Bass Persuades” encontra o disco. Miley não quer vencer uma discussão nem convencer alguém pela lógica. Quem argumenta é o grave. Quem responde é o corpo.
A aproximação fica ainda mais clara em “Everything”, a faixa de Confessions II que critica uma cultura satisfeita em ficar dentro de casa, rolando a tela, em vez de sair e suar junto. “Bass Persuades” olha para o mesmo problema ao evocar telefone, MTV, pôsteres, cinema e vida analógica.
Aqui vale deixar claro: não existe uma ligação musical direta entre “Bass Persuades” e “Danceteria”, e uma não é continuação da outra. O ponto de encontro está no tema. As duas tratam a pista como lugar de formação, memória e encontro. Em “Danceteria”, Madonna volta aos clubes de Nova York que fizeram parte do começo de sua carreira e transforma a própria memória em música do presente. Miley parte do outro lado e pergunta como transmitir essa experiência a quem conheceu a pista primeiro como enquadramento de quinze segundos.
Os próprios vídeos contam a mesma passagem. Miley começa sozinha, atravessa o clube, encontra o grupo e termina dançando na rua. No filme de Confessions II, exibido no Tribeca, Madonna trabalha a tensão entre controle e entrega, entre ser vista e desaparecer no meio da multidão, entre intimidade e encontro coletivo.
Não por acaso, a estreia de Confessions II no Tribeca foi anunciada como uma experiência sem celulares. E isso não começou agora. Eu vivi essa proposta na prática em Lisboa, em 2020, durante a Madame X Tour: meu celular ficou comigo o tempo inteiro, preso em uma bolsa da Yondr que só pude destravar na saída. Anos antes de o pop voltar a pedir menos tela e mais presença, Madonna já transformava essa ideia em experiência. A crítica às telas não ficava apenas nas letras. Fazia parte do próprio show.
O pop inteiro parece discutir a morte da pista. Charli xcx lançou a provocação de que ela estaria morta; Madonna respondeu que, se a pista parece morta, talvez a música esteja errada. Miley entra na conversa sem fingir que o problema não existe: os jovens podem até não querer dançar. Basta o baixo fazer o convite certo.
Não é cosplay. É linhagem em movimento.
Seria fácil reduzir “Bass Persuades” a uma coleção de referências. Também seria injusto. Miley faz algo mais raro: lê Madonna para além da superfície. Ela entende que o legado não está somente no cone bra, no crucifixo, na pose de “Vogue” ou numa jaqueta que reconhecemos em meio segundo. Está no jeito de absorver cultura, mexer com seus símbolos e colocá-los de volta no presente com uma pergunta nova.
Essa é a diferença entre usar Madonna como fantasia e conversar com Madonna como linguagem.
Miley chega a essa fase depois de cantar ao lado dela, revisitar suas músicas e declarar sua admiração por meio da moda. Agora, guiada por um diretor que conhece Madonna como colaboradora e amiga, ela transforma familiaridade em discurso.
O resultado não apaga Britney, Janet, Michael Jackson ou Liliana Cavani. Coloca todos eles numa árvore genealógica pop, bagunçada na medida certa, em que cada referência traz outra escondida dentro de si. É assim que a cultura vive: não protegida numa redoma, mas colocada novamente para dançar.
E há algo especialmente bonito em ver isso acontecer no mesmo ano de Confessions II. Madonna não pediu licença para revisitar a própria pista e tampouco voltou para fazer uma visita guiada a 2005. Voltou para defender o clube como presença, rito, memória, liberdade e resistência à vida presa às telas. Pouco depois, uma das maiores estrelas de outra geração lança um single que transforma essa mesma urgência em refrão, imagem e movimento.
Madonna não precisa que Miley diga seu nome em cada plano. Não precisa que uma artista mais jovem a valide. Não precisa de outra estatística, outro recorde ou outra retrospectiva para provar o que construiu. A obra já fez isso. As mulheres que vieram depois fizeram isso. A cultura queer, a moda, o videoclipe, a turnê pop e a própria ideia de reinvenção pública fizeram isso.
O que “Bass Persuades” revela é ainda maior: a influência de Madonna não está parada no passado, esperando reconhecimento. Ela continua viva e criando novas formas. Continua oferecendo atitude, imagem e pensamento para que outros artistas falem do agora.
Enquanto a indústria procura desesperadamente a próxima tendência e as redes tentam decidir se a pista morreu, Madonna segue tratando o corpo como linguagem e a dança como futuro. Ela não precisa mais provar que esteve antes. O fascinante, em 2026, é perceber que Madonna continua chegando antes.
Agora é com vocês. Assistam a “Bass Persuades” com calma, de preferência mais de uma vez, e procurem os easter eggs, as referências e aquelas imagens que talvez passem despercebidas na primeira vez. Algumas estão escancaradas, outras vivem justamente naquele lugar delicioso entre a memória e a intuição. Depois, contem pra gente: o que vocês encontraram?
Redação: Rodrigo Quinteros Gruner/Equipe Madonna Literal




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